(Inspirado no conto “Babilínia Revisitada” de F. Scott Fitzgerald)
Eu sempre tive a fantasia de voltar pra minha terra por cima, realizado, bem. O famoso ” tapa com luva de pelica” . Mostrar praquela gentezinha imbecil da minha cidade quem eu era, de quem eles tinham rido.
Chegar poderoso, bonito, os dentes estalando de novos, carrão, mas chegar simples, sem banca, simpático, como se aquilo não fosse nada, fosse o meu normal.
Quantas vezes, deitado em minha cama, não sonhei com essa volta triunfal…! Ver o seu pereira do armazém fazer aquela cara de quem diz “vejam, só, o senhor, hein, que sucesso!”. Ver a família Fontes, que tinha vendido todas as fazendas na baixa da cana, e perdido dinheiro e poder, se acercarem de mim, na rua, e me cumprimentarem, surpresos mas afáveis, mesmo que fosse só por interesse.
E todas aquelas garotas que haviam me esnobado porque eu era pobre, feio, tímido?
Com certeza elas estariam gordas, cheias de filhos, infelizes, e pensariam duas vezes se não tinham feito a escolha errada ao me ver ali, bonito, rico, sorridente, condescendente.
Ah, quantas vezes usufruí antecipadamente desses momentos de glória…! Saía desses devaneios feliz, como se os tivesse vivido de verdade.
Mas a verdade é que os anos tinham se passado, e eu não tinha conseguido avançar muito. Eu me esforcei bastante, trabalhei muito, mas tudo foi sempre tão difícil, eu não consegui fazer muito dinheiro, na verdade muito pouco, e esse muito pouco o divórcio ainda levou inteiro.
Eu consertei os dentes, mas não pude pagar um bom profissional, e isso ficava claro sempre que eu abria a boca _ o resultado ficou estranho, artificial. Eu nunca me acostumei com essa boca, e por conseqí¼ência sorrio ainda menos, fiquei ainda mais tímido.
Também comprei um carro, mas um carro popular, pago à prestação com muito sacrifício.
O sonho da volta triunfal foi ficando cada vez mais distante.
Mas, precisava voltar.
Estava desempregado há meses, toda a minha reserva já havia acabado, acumulava dívidas e o proprietário pediu o apartamento, por falta de pagamento.
Não havia outra saída.
O único teto disponível era o da velha casa da minha mãe.
O que é que eu vou dizer pras pessoas? O que é que eu vou dizer? O que é que as pessoas vão pensar?
Eu me torturei por semanas.
Finalmente vendi o pouco que ainda tinha, coloquei o que sobrou no carro e parti. Eram sete horas de estrada federal, e duas de rodovia estadual.
Caía uma chuva miúda, que í s vezes engrossava. O barulho do pára-brisa era o único som que se ouvia dentro do carro.
Já estava escuro, quando eu cheguei à casa simples, mas bem cuidada.
Mamãe me esperava com a mesa posta, o feijão que eu sempre adorei sobre o fogão, o crochê na mão e a tevê ligada na novela.
Meu quartinho de solteiro, acanhado, que eu não via há anos, também já estava pronto: os lençóis listrados de azul bem passados e cheirosos, o cobertor antigo dobrado na beira da cama, o mesmo armário.
Na parede, a foto grande e amarelada da primeira comunhão.
Na cama estreita, à noite, sufoquei meus soluços no travesseiro. Não consegui dormir. Agora, olhando pela janela, fumo mais um cigarro e escrevo.
Lá fora amanhece, e chove.
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2 respostas
Sensacional!
E essa do pouco dinheiro que o divórcio levou?
Genial!
Mandou muito bem, Cármen!
Abraço,
Rbr
Esse é o tipo de literatura que me agrada. Uma estória que não surge do desejo de mero exercÃcio estético, mas da percepção de um conflito humano autêntico. Parabéns, Cármen.
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