Há aproximadamente 12 anos eu morava em Los Angeles. Vivia num ashram com dezenas de outros seguidores da guru indiana Gangha Dji.
Para quem não sabe um ashram é uma espécie de comunidade que tem um líder espiritual, e todos que ali vivem seguem seus preceitos e regras.
Meu trabalho lá era arrecadar recursos através de doações e cursos, com a finalidade de ajudar comunidades pobres da Índia.
Trabalho duro , alegria, meditação, liberdade: o ambiente de um ashram é absolutamente revigorante.
E é por isso que pessoas do mundo inteiro vão passar fins-de-semana ou fazer retiros lá.
Eles pagam por acomodações em quartos coletivos, comida vegetariana, palestras, sessões de meditação e a possibilidade de se reencontrarem um pouco _ e ainda se sentem bem por estarem ajudando outras pessoas.Todo mundo sai de lá feliz, sorridente, renovado.
Gangha Dji é uma líder inconteste. Desde garota ela esteve ao lado do seu mestre espiritual, o grande Sri Ramana Maharishi. De uma casta nobre, aprendeu desde cedo a falar várias línguas e ajudava a traduzir as palestras e conversas do mestre com os visitantes.Quando atingiu a maioridade, decidiu ir para a América e criou a fundação onde funciona o ashram, para arrecadar recursos e ajudar o povo indiano.
Foi numa manhã de maio que Ganga Dji mandou me chamar.
Fique feliz, curioso e muito excitado, pois é muito raro ser chamado por ela. Larguei o que estava fazendo e corri à Sala Azul.
A Sala Azul é simples mas belamente decorada com ornamentos indianos e fotos de crianças nas escolas e creches mantidas pela fundação, além de fotos de outros iluminados.
Sobre um pequeno tablado, numa espécie de trono baixo, estava sentada Gangha Dji: bela, morena, suave, serena, luminosa.
Me sorriu e fez com a mão um gesto para que eu me sentasse ao seu lado.
À sua frente um homem muito velho, vestido num terno de ótima qualidade , estava sentado numa cadeira de rodas, e ao seu redor uma verdadeira troupe: esposa, duas enfermeiras, uma secretária e um segurança.
Fomos apresentados: era ele, Antonioni, o grande cineasta cujos filmes eu assistira na minha juventude.
Ele mal falava; tinha o rosto e o corpo devastados por uma série de derrames.
Então, falei eu. Contei do quanto ele era conhecido e admirado no Brasil, da Geração Paisssandu, do quanto a estética de “Blow-up” tinha influenciado diversas áreas artísticas. Ele ficou admirado, não tinha a menor noção da repercussão do seu trabalho em nosso país.
Mas o tempo todo, enquanto falava, tive que disfarçar a minha consternação ao ver aquele artista tão culto, inteligente e sensível transformado naquela massa amorfa e decrépita.
Gangha Dji ao meu lado resplandecia, dourada, um verdadeiro oceano de tranqüilidade. Sobre sua cabeça fotos de gurus indianos centenários e sorridentes, alguns em posições de yoga, apesar da idade .
Ao final do encontro, Antonioni segurou a minha mão entre as suas e agradeceu, balbuciante e emocionado: “grazie, grazie”.
Depois que ele saiu também agradeci à Gangha Dji pela oportunidade de conhecê-lo.
Ela me dirigiu um sorriso luminoso e disse, apenas: “ pense nisso”.
Foi aí que entendi o motivo dela ter me chamado.
Sabendo da minha cisão permanente entre seguir o caminho espiritual ou me tornar o escritor que eu gostaria de ser, com todas as suas implicações, ela quis me mostrar possibilidades de futuro.
A diferença entre um homem que havia vivido intensamente a vida mundana e os que haviam vivido intensamente a vida espiritual estavam expostas ali, claramente.
Que caminho escolher?
Fiquei no ashram por mais três anos, e só saí porque problemas familiares exigiram a minha presença no Brasil .
Hoje tenho vários livros publicados, mas ainda sonho em voltar para o ashram.
A imagem da decadência física de Antonioni até hoje me persegue e assusta.
Por vias da dúvidas, faço yoga e como brócolis todos os dias…
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1 resposta
Touché, Carmen, este está ótimo, especialmente para os fãs de Antonioni…
Temos q lembrar q apesar dos derrames Antonioni viveu tudo q tinha q viver e namorou a Monica Vitti. Morreu só aos noventa anos e em seus últimos anos se tornou um pintor.
Ganga Dji soube energizá-lo bem…
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