Creuza Sueli deu um longo suspiro enquanto subia no elevador. Os números passavam vagarosamente, mas ainda rápido demais para ela. Ela fechou os olhos e forçou o pensamento para o churrasco de domingo à tarde. O Flamengo venceu e seu marido promoveu uma festança por conta. Cerveja, carvão e, claro, a carne, tudo comprado com antecipação e preparado, só esperando para o que time fizesse sua parte. Tocou forró e funk até à madrugada. A carne estava deliciosa e a cerveja gelada. Parecia réveillon na praia de Copacabana. Creuza Sueli se concentrava em todos os momentos felizes para animar o espírito e poder, desta forma, encarar o seu Gouveia.
Seu Gouveia era um senhor de 110 anos, mas com espírito de Matusalém com prisão de ventre. No entanto, pelo o que dizem, o sujeito já era um filho da puta desde jovem. Foi o primeiro morador do prédio e último representante da primeira geração de condíminos. Era como aquela antiguidade que você recebe de presente, mas é feia pra caramba e não combina com nada na sala, então é deixada em seu canto para não incomodar a vista. Seu Gouveia, ao contrário do objeto, estava muito vivo e fazia questão de mostrar sua presença das maneiras mais desagradáveis possíveis. Quando encontrava os porteiros vendo o jogo na TV de 5 polegadas que um deles trazia, dizia algo como “Vão trabalhar! Isso aqui não é o barraco de vocês!” Quando as crianças corriam na entrada, comentava alto: “Esses pivetes deviam apanhar com cinto e ajoelhar no milho para aprender o que é respeito!” Seu Gouveia, de longe, não era a pessoa mais amada do prédio ou de qualquer lugar onde ele estivesse.
Há alguns meses, seu Gouveia caiu no banheiro e quebrou a perna. Como nem seus filhos conseguiam acumular suficiente força de vontade para encará ” lo, contrataram uma enfermeira para fazer o serviço sujo. Duas mulheres depois, entrou Creuza Sueli. Era sua segunda semana no trabalho e todo dia ela rezava duas Nossas Senhoras, uma antes de sair de casa e outra quando chegava. A primeira era para que ela não matasse o velho e a segunda, agradecendo por sobrevivido ao dia e resistido í s tentações.
O elevador parou e ela saiu. Andou pelo corredor lentamente, sentindo ” se levemente tonta. Abriu a porta e entrou. Assim que fechou, ouviu aquela voz rouca de cigarro.
“Está atrasada de novo, sua puta! Eu estou morrendo aqui e você fica se oferecendo no meio da rua para marginal! Crioula é tudo igual mesmo! Só serve para isso!”
“Não mata o velho, não mata o velho, não mata o velho! Você precisa do dinheiro pra pagar o quarto na casinha em Búzios para as férias! À só mais esta semana e você consegue! Você e Clayton juntos na praia, com os amigos pro feriadão. Você consegue, teu santo é forte!”
“Cadê você? Tá roubando minhas coisas? Deixa de bunda mole e me levanta pra mijar!”
“Não mata o velho! Cadeia. Não vale a pena!”
Creuza Sueli, após criar coragem, chega no quarto do homem.
“Bom dia, Seu Gouveia.”
“Bom dia é a puta que pariu!”
“Vejo que continua espirituoso como sempre…”
“Espírito? Você quer que eu morra ou tá fazendo macumba no seu terreiro contra mim? Pode fazer! Eu agí¼ento todas as bocas de sapo fechadas do mundo!”
“Infelizmente…”
Enquanto ela o ajudava em sua higiene, mais palavras gentis seguiram. E assim foi o dia, como todos os outros.
Finalmente, o último dia! Creuza Sueli estava em estado de graça. Não veria mais aquela praga preconceituosa e babante e teria o dinheiro pro quarto no feriadão. A única diferença era que ele estava mais calmo. Continuava insultando ” a e gritando horrores como sempre, mas sem o fervor de antes e mais calado.
“Seu Gouveia, semana que vem, uma nova menina vem aqui e vai cuidar do senhor. Se cuida.”
“Uma palavra de consideração não dói.” ” pensou.
“Vá à merda!”, ele respondeu.
Ela saiu, sentindo ” se muito bem consigo mesma. Tinha conseguido o que queria e aturado um dos seres humanos mais desprezíveis que encontrou. Era uma santa.
Seu Gouveia, sozinho, deitado na cama, não conseguia dormir. Encarava o teto e pensava: “Lá se foi mais um amor da minha vida…”
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