Estive no Dr Gouveia para uma verificação de rotina. A sala de espera era pequena mas de bom gosto. Mesmo faminta tenho que admitir que seria um contra-senso se houvesse, num consultório de dentista, além de revistas, café e biscoitos. Não esperei quase nada para entrar e isso é um ponto bastante positivo. Fui recebida com um sorriso empresarial e notei que, neste caso, o santo da casa fez milagre. Os dentes do Dr Gouveia eram impecáveis. Dizem que Gouveia é nome de gente velha mas o Dr Gouveia, não é. Também não é recém-formado, o que geraria um medo, considero justo e proporcional, de que o jovem dentista se empolgasse com a furadeira ou com outros metais, como vemos acontecer com certos cabeleireiros que, diante de uma cabeleira e com a tesoura em punho, entram em transe, ininterrompíveis, num gestual quase para-normal, possuídos pelo prazer de esculpir cabelos ao tilintar da tesoura e ver o chão se transformando num tapete peludo. Em seguida, ato contínuo como brinde deleite, virá uma subalterna com sua vassoura varrer e eliminar o resíduo do trabalho do artista.
Deitei no divã do dentista e deixei que analisasse meus marfins. Fio dental, para mim, era peça de vestuário. Por essa negligência sabia que não ficaria impune. E vamos lá, fuça aqui, fuça acolá, até raio x foi tirado, e o diagnóstico é o seguinte: um dente quebrado, duas cáries, limpeza de tártaro e mais o flúor.
“Mas Dr Gouveia, não é possível que seja tão caro assim!”
“Lia, nem os convênios pagam esse preço. Estou usando a Tabela de Honorários Mínimos, quer ver?”
“De jeito nenhum, Dr Gouveia, confio no senhor. Infelizmente ainda assim não tenho condições… Queria perguntar só mais uma coisa, quanto custaria sem recibo?”
“Menos 15%: R$ 420,00.”
Conversa vai, conversa vem, sem recibo eu pagaria menos e sem roupa não pagaria nada. Pequeno detalhe diante de um benefício tão especializado. Opto por não pagar e marco a consulta.
É hoje.
Contraditoriamente custei para escolher uma roupa, uma era provocativa demais e a outra me engordava. E os pensamentos: será correto? Melhor desistir e trocar de dentista. Mas uma pergunta me ajudou a decidir:
“Rotina, para que te quero?”
Chego, agarrada à minha bolsa e não é mise-en-scène. Parece uma estréia. Até a Fernanda Montenegro admite que é sensacional porém difícil.
Ele me recebe profissionalmente, com o mesmo sorriso mais-ou-menos. Senta-se para anotar alguma coisa na agenda, discretamente espera que eu me acomode. Preciso ser objetiva e sei o que preciso fazer. É para o bem de todos. Faço.
Ele se aproxima e ajusta a inclinação e a altura: mais alto, quase horizontal. Escolhe e separa os instrumentos sobre a mesinha de apoio e começa o tratamento. Em nenhum momento parece constrangido mas estou tão confusa, confesso, que nem ouço o ruído do motor. Esqueço de sentir dor. Minutos passam. Dezenas de minutos. Relaxo. Sinto firmeza na técnica do Dr Gouveia.
Quando termina ele faz um gesto de o-trato-está-cumprido-pode-ir-embora. Ao invés de me levantar imediatamente, permaneço com carinha de safada e descruzo as pernas. Empolgado e ainda com as luvas de procedimento, ele aperta meus seios – um polvo diante de um cardume. Lembrando de um filme que assisti e pensando que quem está na chuva tem que se molhar, eu lhe disse:
“Pois é, Dr Gouveia, tudo na vida tem um preço.”
“Ah é? E qual é?”
“R$ 420,00”, eu respondi.
E ele topou.
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