Carrinho vermelho de lata. Com as quatro rodas de pau. Sendo uma de carretel. Carrinho vermelho.
Jardinzinho de dois palmos e atrás o quintal de três. No quintal um dia veio uma cobra. Então carrinho prefere lá na frente de casa.
Roseira acanhada, muito espinho e pouca flor. Mas a menina acha a coisa mais bonita, quando dá. Ah, que flor bonita, mãe.
Mãe da menina. Muito peito e pouco amor. Igual recebeu da sua. Costume do tempo. Blusa vermelha de chita, beiços de rosa madura. Das quase negras de tão vermelhas, que nem passam pelo roxo. Mãe da menina.
Mão da menina, palma estreita e amarela. Unhas estreitas, um dia vai ter unha comprida. Feito a madame de chapéu novo, no automóvel. Preto, comprido. Esse, de lata? Não.
Mão da menina remexendo. Debaixo das pedras. Nas frestas do muro. Remexe sempre. Já achou ninho de barata, já achou anel. Escondeu. Perdeu. Esqueceu. Mão sem anel mas um dia quer ter. De pedra roxa. Dedo todo marcado, aprendendo fazer bainha em casa. Não leva jeito. E cortado, de tanto remexer. Revirar o mundo.
Mão do irmão. Dedinhos espetados, não sabe descansar. Ou então segura forte, não quer saber de largar. No irmão não pode mexer. Mão da irmã, apanhou a chupeta. Leva um tapa da menina, não pode mexer no neném. Mas ele está dormindo. Mãe enxota tudo pro quintal. Hoje não tem cobra.
Corredor escuro. Assoalho com uma tábua rachada. Rachadura é bom, dá para remexer mais. Achar coisas. Toco de lápis. Botão colorido. Botão redondinho feito gota d”água. Botão desenhado. Guarda no vidrinho. Botão feio dá para a mãe, branco, preto, sem graça. Colchete, alfinete, ela dá. À ruim, espeta. Moeda. Moeda a mãe toma. Criança não precisa de dinheiro. Então eu não dou mais botão para a senhora.
Disparando no corredor. Esqueceu o carrinho. Volta buscar. Quando a mãe não está olhando. Antes que a mãe veja. Antes que a mãe não veja e tropece. Carrinho vermelho, de lata.
Carrinho gosta de olhar os carros na rua. Tem carroça e automóvel. Carrinho de mão. Isso tem muito. Carrinho é parecido com automóvel, um pouquinho. Automóvel de verdade é preto sempre. Não tem dois olhos pintados. Carrinho é mais bonito. À de lata recortada. Dentro tem azeitona desenhada.
Automóvel da madame das unhas. Flores no chapéu. Não é rosa, é feito um sol. Mãe, que flor é que é feito um sol branquinho? Cadê sua irmã, menina?
Pai da menina, vem chegando. O bonde passa lá na rua da igreja. Roupa escura da rua, dura, cheirando a pó. Cheirando a suor velho com pó quando ele volta. À feito uma casca. E é outro pai. Assustado de estar de casca. Não quer saber de flor, quer saber de se lavar. Tirar a casca.
Pai da menina, cabelo molhado, camisa de meia ensopada nos ombros. Braços molhados. Pé sem meia no chinelo. Pegou maninha no colo, botou no chão. Pai que flor é que é feito um monte de sol pequenininho? Onde é que tu viu isso, quer saber a mãe. Que flor que é, pai! À malmequer, se for branco, senão é camomila. Dar chá de camomila o dia inteiro pra você dormir. Tua irmã também, neném também. E eu também. Pai nem falou nada. Mas a flor era branca, então era malmequer. Ainda bem.
Quadro de papelão da escola, de aprender ler. A mestra diz que é aprender a ler. Na escola carrinho não pode ir. Nem maninha. Então guarda meio alto para maninha não bulir. Monte de quadro de papelão, coloridos, cada um mostra uma história. Tem Coisas Nossas, tem Na Cozinha, tem Na Escola, No Empório, No Jardim. Tem bananeira e pau-brasil, rosa branca e rosa amarela, tem violeta e margarida. Margarida é malmequer?
Dona Norina. Blusa branca de bordados. Sempre. Saia escura toda esticada na barriga. Não vai ganhar neném. Menina já perguntou. Dona Norina zangou. Foi hoje não. Dona Norina, margarida é malmequer? Malmequer é pequenininho, margarida é grande. Grande como um sol? Não, grande assim. Então não é grande. Dona Euzevira diz que chama desse tamanho de malmequer.
A mestra da sala dois é Dona Norina. E Dona Euzevira tem um cheiro ruim quando fala. Então desse tamanho é margarida, vai ser. Esse tamanho é o tamanho do monte de flor do chapéu. O chapéu novo, no automóvel.
Na igreja com a mãe. Mão da maninha, molenga na mão esquerda. Mão direita puxa a mãe. Mãe, olha quanta flor! Fica quieta. Aqui não pode ficar falando, não.
Mãe, eu quero margarida! Cuidado com o bonde, menina, não está vendo o bonde não? dá a mão. Mãe, quero margarida! Vamos botar lá na frente perto da rosa?
Mãe, olha margarida! Tabuleiro da moça de brincos e rosa no cabelo. Cabelo fofo como o cabelo das mestras, cor de melado. Rosa cor de rosa. Olha para a blusa da mãe. Hoje não é vermelha, é pano azul escuro. Olha para os sapatos das meninas. Criança não precisa de meia. Olha e vai embora. Salto comido dos sapatos da moça, torto atrás. A menina olhou.
Carrinho de lata vermelho. Janelinhas recortadas. Menina vai empurrando para dentro o que acha nas frestas do assoalho. O pó, não. Só o que é bonito. Deixou maninha procurar perto da porta. Aí é sua casa, aqui é a minha.
Florzinha de pano cor de rosa, caiu de um enfeite. Vidrilho verdinho. Moeda grande. Criança não precisa de dinheiro. Mas a mãe está no quintal. Menina empurrou o portão, suspendendo para não fazer barulho. Foi comprar margarida. Perto da igreja. Não foi o bonde que pegou, foi um automóvel. Todos os automóveis são pretos. De luto, carrinho de lata perdeu o carretel e começou a enferrujar.
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