(Lido no encontro de 06/05/08 e inspirado em um fragmento de “O animal Agonizante”, de Philip Roth.)
Eu fiquei totalmente surdo com a idade e como o processo costuma ser gradativo – e foi – não posso dizer que tenha sido traumático. Durou uns 10 ou 15 anos e tenho, até mesmo, a sensação da primeira vez que percebi não estar escutando: estava almoçando com minha mulher e ela estava, comme toujour, reclamando dos meus modos. A voz dela foi ficando mais baixa e mais fraca, até que me dei conta de que só via sua expressão ranzinza e sua boca falando-falando, sem que eu pudesse ouvir nada. Foi um susto e admito que fiquei revoltado. Hoje sei que, se eu pudesse ter escolhido dentre as perdas decorrentes do envelhecimento, ou ainda, entre ficar surdo ou cego, iria escolher ficar surdo – que me parece menos incapacitante. Acho engraçado quando tentam se comunicar comigo, gesticulam, fazem caretas e articulam exageradamente, inclinam a cabeça para os lados e até levantam quando estão sentados. Preciso confessar que, í s vezes, finjo que não estou entendendo só para continuar me divertindo com a atuação teatral do interlocutor.
Dentro da família é diferente. Acompanharam o processo, me conhecem como a palma da mão deles e sabem exatamente quais são as minhas possibilidades. Nem ouso trapacear a família e as pessoas mais íntimas.
Nos meus momentos de reflexão, penso que fiquei surdo porque odeio qualquer barulho. Detesto gente que fala sem parar, latidos, ruídos do trânsito, barulho de motores, vozes de vizinhos e toque de telefone, com destaque para este último. Então, dei um jeito de me aposentar dos sons como um todo, já que não dava para ser seletivo. O que sinto mais falta é de não poder ouvir música. Lamento muito. Guardo na memória muitas melodias e canções e estou sorrindo ao lembrá-las.
Meu repertório está desatualizado mas, na lógica, se o coração não sente o que os olhos não vêem, também não sente o que os ouvidos não ouvem, e eu sou, afinal, um privilegiado colecionador de vinis imaginários de uma vitrola portátil invisível.
A ciência deve estar preparando uma boa surpresa para nós surdos. Quem sabe, uma forma de cortar o caminho do som, independendo dos canais auditivos e passando diretamente ao cérebro. Por enquanto, vou aproveitando o silêncio que pedi a Deus e não reclamo, nem mesmo por não ter ouvido o choro da minha netinha quando nasceu.
Acredito que valorizo, mais do que antes, o sentido da visão, obviamente com ajuda das lentes, já que não existem velhotes sem óculos. Posso usufruir a praia, por exemplo, sem os estridentes vendedores ambulantes enquanto olho – e enxergo muito bem – as morenas, as loiras, as negras, as mulatas e, principalmente, as ruivas.
Num desses domingões, estava eu assistindo um futebol com meus filhos, quando o timão fez um golaço e eu tive a impressão de ouvir:
- G O O O O O O O O O O O L ! ! ! ! !
Depois disso, procurei me certificar da impressão, tão freqí¼ente, de que escutava. Cheguei a pensar que estava ouvindo vozes mas cheguei à conclusão de que é fato verídico.
Me deu assim uma certa nostalgia, uma certa confusão pois eu estava tão bem adaptado à minha condição de surdo e agora estou prestes a perder, entre outros, o direito adquirido de ser olhado nos olhos toda vez que falam comigo. Estou num impasse, escutando tudinho e ainda não avisei a ninguém. Resolvi guardar esse segredo, é meu direito e talvez seja uma recuperação passageira. Pelo talvez, pelo sim e pelo não – bico calado. Não se mexe em time que está ganhando.
Artigos Relacionados
1 resposta
Lembro que quem leu esse conto fui eu, e que adorei o bom humor e o final dele. Muito bom!
Deixe seu comentário