(Vencedor da rodada competitiva de 08/04, foi inspirado num fragmento de “Contos de Einstein”, de Alan Lightman, que havia sido proposto – i.e., lido – no Clube pelo próprio Ronaldo! Aproveito então para lembrar aos escritores que costumam participar da aposta que ater-se ao mote do desafio costuma mesmo dar ibope, de modo geral. Nossa saudosa Camila Aguiar, colega de Campus do Ronaldo, foi outra que levou o prêmio encarando de frente as idéias presentes no conto ou romance escolhido no encontro anterior.)
Me dá até certa vertigem, mas eu me divirto pensando que neste exato momento pode estar acontecendo absolutamente tudo. À noite no Brasil, mas é dia no Japão e é tarde nalgum outro canto do mundo. Acho que isso basta para provar que uma infinidade de histórias está se desenrolando. Por exemplo, a dessa garota que faz seu primeiro programa. Ela olha para o teto e emite gemidos falsos, surpreendendo-se por a coisa não ser tão diferente de quando fazia com seu namorado. No mesmo hotel, outra garota olha pela última vez a bunda branca e murcha de um velho vendedor de seguros. Ela já comprou um apartamento na zona nobre, e acaba de decidir que nunca mais vai chupar ninguém por dinheiro.
Diferente do que acontece com esse sujeito que chegou em casa mais cedo, evitando fazer alarde. Ele traz flores vermelhas, embora não seja aniversário de casamento, nem dia dos namorados. Ele viu um jovem cantar sua secretária e se sentiu subitamente romântico, recordou que as mulheres também servem para ganhar presentes e elogios. Mas quando entra em casa, a esposa está no banho, a porta da cozinha está trancada, e ele sente que algo está errado. Sua mulher diz que já está se secando, ele ouve alguém sair pela porta dos fundos, e deduz rapidamente o que aconteceu. Entrega as flores apressadamente, diz que precisa voltar ao escritório, que esqueceu o cálculo de uma recisão que vai ser paga amanhã. Sozinho no estacionamento do prédio, ele mesmo se surpreende quando o choro começa, convulso e desajeitado como de criança.
Mas, graças a Deus, a beleza também acontece. Uma menina pobre ganhou uma bolsa da prefeitura e vai à sua primeira aula de balé. As meninas ricas já se acreditam grandes bailarinas e vêem a professora como um personagem fugaz de suas futuras biografias. Mas a menina pobre se encontra pela primeira vez com a elegância, a delicadeza e a tristeza inexplicável da arte. Subitamente ela se dá conta de que não existe absolutamente nada no mundo que valha mais de um pensamento, a não ser o balé. Anos mais tarde, ela se esquece de mencionar esse dia a seu biógrafo, embora o rosto altivo e confiante da professora esteja imortalizado em sua alma para sempre.
Numa cidade pequena, um garoto espera o pai sair de casa para desmontar seu computador. Ele não sabe exatamente para que serve aquela coisa, mas sente uma necessidade urgente de ter uma vaga idéia de como a máquina funciona. Seu pai tem um velho chevete e o menino o identifica pelo barulho do motor. À terrível a sensação de que o velho está voltando e ele ainda não sabe como recolocar as peças no lugar. Mas ele sabe que levará uma surra se não inventar uma ótima desculpa. O problema é que ele não é bom em desculpas ” as máquinas ocupam todo o seu interesse, não deixando muito espaço para a imaginação ” e ele se lembra desse dia com vaga tristeza, anos mais tarde, quando assina o cheque para pagar o plano de saúde do velho. Agora, engenheiro formado, ele saberia montar aquele computador em menos de dois minutos, mas ainda sente uma vaga humilhação por não saber inventar uma boa desculpa para nada.
Um escritor faz anotações num pequeno café de uma cidade Búlgara. Seu primeiro livro foi um fracasso, o segundo também e o terceiro também. Mas o quarto finalmente fez algum sucesso, e ele píde dizer à sua mulher: ” não falei que eu ia conseguir! Mas sua mulher desdenha a literatura e pensa que seria melhor se ele gastasse seu tempo livre passando as próprias camisas. Depois ela liga para uma amiga e diz que o marido está fazendo sucesso, e a amiga pergunta quando vai ser a entrevista na televisão. Ela desliga com raiva, porque odeia pensar que esse tal sucesso do marido não serve nem para uma maldita entrevista na televisão!
Outro momento pede mais atenção: uma mulher de uns trinta anos está tendo seu primeiro orgasmo. Ela tinha lido todas as revistas femininas e todas as matérias sobre o assunto, mas quando sentia uma leve comichão, na altura da cintura, ficava se perguntando se aquilo é que era o tal do orgasmo, e a sensação logo se dissipava. Mas hoje ela exagerou no martíni e não se pergunta nada enquanto a comichão vai tomando conta do seu corpo, vibrando a coluna e chegando pulsante ao peito e à cabeça. No dia seguinte ela sai do banheiro e vê o homem deitado de bruços na cama do motel. Ela pensa que não queria que seu primeiro orgasmo fosse com um homem de costas tão peludas. E ainda repara que suas pernas são finas e que ele já é ligeiramente calvo no cocuruto. Ela se sente traída pelo destino, porque tinha imaginado que seu primeiro orgasmo seria com um jovem jogador de tênis, ou com um ator, ou com qualquer um que se parecesse bastante com um ator. O homem, por sua vez, coloca os óculos e vê que ela quase não tem estrias e que seus peitos estão bem rijos para uma mulher de trinta anos. Curiosamente, algum tempo depois de casados, eles não comentam essa cena, mas apenas o jantar que tiveram antes: ele pediu filé com chutney de uva; ela, pene com algas e açafrão. Também queria experimentar o filé com chutney, mas achou que pareceria uma mulher sem originalidade se pedisse o mesmo prato que ele.
O curioso é que nenhuma dessas cenas foi filmada ou fotografada ou registrada de algum modo. Mas basta que seus autores fiquem sozinhos, para que suas lembranças venham à tona, como estranhas flores noturnas, que desabrocham mesmo sem o brilho e o calor do sol. A garota de programa, o escritor búlgaro, o jovem engenheiro bem pago, todos sorriem para as câmeras, e, quando encontram seus amigos, dão-lhes tapinhas nas costas e dizem “você não mudou nada”. Mas quando se vêem subitamente sozinhos, quando acordam de madrugada e não podem ligar a TV, porque o marido ou a mulher estão dormindo, eles intuem que o primordial de suas histórias passou sem fotos ou testemunhas. Apenas eles mesmos podem recordar esses momentos, em que a vida lhes pareceu tão clara e decifrável quanto uma maçaneta. Então eles juram que farão um diário ou escreverão um livro, porque temem que esses momentos se percam para sempre no mar disforme do esquecimento. Mas não fazem o livro, não começam o diário ” estão sempre sem tempo ” e por isso se surpreendem quando o evento retorna, cada vez mais claro e definido. E se sentem gratos e aliviados, por saberem que o essencial de suas vidas jaz sereno e inabalável como uma relíquia, irretocável e satisfeito, imune ao tempo e aos humores humanos.
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