(Participação transcontinental! Márcia, uma das fundadoras do Clube, está em temporada européia e enviou esta contribuição por e-mail, que deveria ter sido lida no último encontro, se não fosse os problemas que tivemos aqui em nossa conexão, que impediu que víssemos o conto na caixa postal virtual. Mas aqui está, mais um saboroso – e apimentado – conto de uma das mais serelepes escritoras da confraria. Bom apetite!)
Um belo dia quando chego em seu ateliêr, me deparo pela primeira vez com um sofa
vermelho e digo:
“Hummm, que surpresa! Finalmente, um lugar decente para sentarmos!”
Costumávamos passar nossas tardes nos enroscando entre arquivos, quinas de cadeiras, pelas paredes como lagartixas em fricção. Muitas vezes, nossas incursões me deixavam, fatalmente, com algumas manchas roxas: nem ligava, nem sentia. A coisa esquentava tanto que, no calor dos afetos, só sobravam gemidos e espasmos.
Mas desde o surgimento daquele sofá vermelho como uma boca escarlate, era ali que passamos a nos amar aproveitando o impulso de cada mola do estofado.
O imóvel era uma casa de vila com varias aberturas voltadas para outras tantas janelas. Não haviam cortinas e, quando nus, eu de pernas suspensas e escancaradas, ele me penetrando e exibindo seu bumbum redondo e volumoso como uma melancia, lhe perguntava:
“O que nos estamos fazendo? Isso e uma loucura!”
“Não sei. Não pergunte. Se a gente pensar não faz! respondia ele com a convicção daqueles que, quando querem algo tão visceralmente, não interrompem o desejo em ato.”
No que eu concordava plenamente. E pensava: “que se dane os outros. Já e tão raro sentir-se `a vontade para se expor plenamente a um outro que não faz nenhum sentido interromper por conta de outros: os anônimos. Qualquer coisa, poderíamos pensar em cobrar ingresso. Por que não? Afinal, era um show e tanto que proporcionávamos”.
Lembro-me perfeitamente uma das muitas tardes, depois de termos feito amor, eu estirada no sofá, lânguida, a imagem encarnada da lassidão. Ele volta da cozinha com um copo d’água em mãos e diz ternamente:
- Você esta linda com sua pele alva em contraste com o vermelho do sofá.
E assim permaneci imóvel um pouco mais de tempo, para satisfazer sua volúpia, sentir a caricia que recebia vinda de seu olhar quase tátil a me tocar o corpo em toda sua extensão. Eu parecia uma pintura que mesclava as dançarinas de Toulousse-Lautrec no Moulin Rouge, com aquele espectro de ausência que ha no olhar de todas as mulheres retratadas por Modigliani.
Ali estava eu: entregue, saciada pelo homem que amava e que despia-me completamente, mesmo estando vestida. Nossas almas roçavam uma na outra com tamanho despudor que pensávamos: ” Se os deuses estão a nosso favor, quem iria ter a audácia de se opor?”.
E enquanto não aparecia nenhum empecilho que interferisse no idílio amoroso desses dois fogosos amantes, eles se lambuzavam e arfavam como dois inocentes pagãos libertos no fogo que ardiam.
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1 resposta
Marcia, gostei muito das janelas sem cortinas e do sexo com amor. Bjs
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