(Tradução do japonês de Jefferson José Teixeira)
Tudo correu como o previsto. Arranquei de seu corpo tudo o que o cobria e a coloquei de costas, inteiramente nua, de comprido sob a luz da lâmpada fluorescente e do abajur de pé. Depois, como se estudasse um mapa geográfico, apliquei-me em estudá-la minuciosamente. Por instantes fiquei paralisado diante do corpo maravilhosamente imaculado que pela primeira vez via de tal forma. Muitos maridos devem conhecer as formas do corpo de suas mulheres em todos os pormenores, chegando talvez mesmo a saber o número de linhas da planta de seus pés. No entanto, minha mulher nunca se mostrou por inteira a mim. Nos momentos de amor, é claro, vi partes de seu corpo, mas sempre fiquei limitado à sua parte superior, pois ela se recusava terminantemente a me mostrar o que não fosse indispensável. Apalpava-a apenas imaginando suas formas e pensando que ela era dona de um corpo escultural. Por isso desejava vê-la sob essa luz branca, e não só não me frustrei com a espera, como também ultrapassei minhas expectativas. Via pela primeira vez depois de casados, as formas de seu corpo inteiramente nu, em particular a parte inferior de seu corpo, em todos os seus recantos.
Ela nasceu em 1913 e por isso não tem as mesmas formas das jovens de hoje, mais assemelhada í s das ocidentais. Como era de se esperar, na juventude praticara natação e tênis com afinco, possuindo um físico bem-proporcionado para uma japonesa da época, embora seu busto não fosse proeminente nem seu traseiro bastante desenvolvido. Suas pernas esguias são levemente curvadas na parte inferior ao joelho, como a desenhar um O. Sou obrigado a admitir que não são completamente retas. Suas canelas, principalmente, têm o defeito de não serem delgadas, se bem que não me atraem as pernas muito finas como as das européias, dou mais valor í s formas de antigamente, como as de minha mãe e minha tia, um pouco encurvadas. Prefiro formas de corpo não tão ondulantes, que deixem entrever apenas pequenas elevações, como as da divindade do templo Chuguji.
As formas do corpo de minha mulher eram na realidade tais como as imaginara. A pureza da pele de todo o seu corpo ultrapassava a minha imaginação. A maioria das pessoas possui em algum lugar do corpo um sinal qualquer, uma pinta marrom ou negra. Mesmo procurando minuciosamente não encontrei nenhuma em seu corpo. Virei-a de bruços e investiguei até mesmo a reentrância de suas nádegas. Mesmo ali sua pele é branquíssima. Por todo o corpo a pele se preservara sem marcas ou pintas apesar de já ter atingido quarenta e cinco anos e ter dado à luz uma filha. Durante os longos anos de nosso casamento só me fora permitido acariciá-lo com as mãos, no escuro, sem poder admirar a grandiosidade de seu corpo. Quando penso nisso creio ter sido uma grande felicidade não poder tê-lo contemplado. Após mais de vinte anos de vida em comum, um marido que se espanta ao descobrir pela primeira vez a beleza do corpo nu da própria esposa sente como se recomeçasse um novo casamento. Chegou o tempo de deixar para trás o cansaço matrimonial. Posso amar minha esposa com a paixão transbordante do passado, redobrada.
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