Ela vinha sem muita conversa sem muito explicar.
Não tinha telefone nem endereço então eu tentava encontrá-la na praia, seu lugar predileto. A fim de avistar os andantes da calçada, eu ficava sentada na beira da água, de costas para o mar.
Como poderia procurá-la com seu chapéu preto, se este chapéu pousava, há muito, no cabideiro do meu quarto? De fato, nunca pude encontrá-la na praia mas ela veio, algumas vezes, me visitar em sonhos.
Apesar de esperar tanto por estes encontros eles eram por sua natureza, inesperados e breves, brevíssimos. Eu só tomava consciência ao acordar, enquanto recapitulava as sensações da noite, os pensamentos antes de adormecer e os planos para o dia que começava. Lembrava com nitidez cinematográfica, cada piscar de olhos, cada franzir do rosto. Nunca conseguia lhe dizer nada, achando que desapareceria. Essa era a minha forma de estar com ela, meu coração sempre disparando de alegria e medo, pelo seu sorriso monalístico numa face maquiada de base branca – como dos palhaços. Num par de minutos dava conselhos como um par de luvas e pronto, pequeno encontro. Encontros que não tinham começo nem fim. Quero crer que o meio seja a parte mais importante, como no caso dos pastéis.
Em cada um desses “de repente com minha mãe”, estive num lugar diferente e inusitado. Às vezes exótico como um castelo no deserto com janelas góticas por onde a luz do dia chegava alaranjada, í s vezes assustador como um condomínio labiríntico em cimento cru, rodeado por grama descuidada e suja, e habitado por pessoas maltrapilhas.
Suas mensagens ressoam em minha memória e se confundem com palavras ditas em outros tempos. “Insistir, persistir e saber parar”, por exemplo, que nem sempre é fácil. Será que não deveria investir mais? ” eu penso e ouço sua resposta: “Se te parece que está tentando tirar água de pedra, seja corajosa e desista. Desistir pode ser um caminho e um carinho. “
Certa vez ela disse: “Você pode viver a energia vital sem se expor além da conta. Faça oportunidades. Observe os semelhantes não explícitos. Permita que te observem, mesmo em momentos de teatro social.”
Estive com ela em um navio ancorado onde piratas festejavam dançando e cantando num idioma indecifrável. Lembro que me falou, então, sobre como é especial quando conseguimos atrair pessoas compatíveis conosco. Ela disse: “Nem sempre a nossa turma chega a nós espontaneamente assim como nem sempre a turma equivocada se afasta espontaneamente. O motivo é que camuflamos a nossa personalidade através da imagem equivocada da essência.”
Uma vez estivemos numa feira de roupas usadas, com jaquetas de couro de todas as cores, e lá ela me falou: “Quando percebemos que a linguagem das atitudes não é coerente com a expressão oral ou com a realidade circunstancial, precisamos escolher. Qualquer um possui visão psicológica de Raio-X e, como óculos, é preciso optar por seu uso.”
Sua voz me acariciava com assuntos genéricos, humanos e universais. Não havia mais intimidade de mãe com filha. Nossa relação mudou totalmente de status, o que posso compreender. Ainda sou capaz de procurar por ela, no sol da praia, mas os contatos deixaram de acontecer. Uma única vez nos abraçamos, com intensa emoção, e desde então não a vi mais.
Saudade não tem fim.
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