(Os produtores do Clube e os livreiros do Sebo Baratos agradecem ao autor pelo carinho. E devolve a gentileza destacando que além de estar entre os craques do nosso time, Rudá é um dos melhores leitores da paróquia. Nas rodadas competitivas, ter seu conto lido pelo Rudá é sempre meio caminho andado em direção ao grande prêmio, sem exagero. Grande abraço. Ass: Maurício)
Antes de mais nada, preciso confessar que ao me deparar com o mote do último clube da leitura, fiquei com uma leve apreensão. Na verdade, mais que isso, quase entrei em desespero. Maldita hora em que alguém foi sugerir um tema desses! Acho que de encomenda não saía pior…
Não me entendam mal, por favor. Não tenho nada contra o tema escolhido, muito pelo contrário. Na verdade, a idéia me fascina de tal forma que cria uma dificuldade diametralmente oposta àquela que surge ao ter de falar (ou melhor, escrever) sobre um tema fútil, vazio ou raso: surge uma gama tão ampla e variada de possibilidades, que a um primeiro momento me deixa em estado de desorientação completa, sem saber que rumo tomar, por onde começar, o que dizer, qual ponto de vista adotar; isso sem levar em conta que já sou uma pessoa naturalmente confusa e indecisa.
Pra tentar facilitar as coisas um pouco pro meu lado, tentei recorrer a exemplos que eu pudesse usar como fonte de plágio, digo, inspiração: filmes, livros, letras de música, esses pequenos fragmentos que ficam à deriva na nossa memória, e de repente por alguma reação neuroquímica mal-explicada vão sofrendo estranhas mutações até se tornar algo completamente diferente do que eram a princípio, isso quando não decidem brincar uns com os outros até se misturarem criando algo diferente da soma de suas partes, completamente novo.
Só que o tiro acabou saindo pela culatra, e cada idéia que me ocorria me mostrava que eu estaria muito aquém de qualquer criação de um Stanislaw Lem com seu Deus Imperfeito, de um Neil Gaiman e seu Lúcifer desistindo do Inferno e abrindo um “night club” nas ruas de Nova Iorque, de Lima Barreto mostrando um Deus que precisa descer à Terra para finalmente encontrar um santo que não acredita n’Ele, e ao mesmo tempo aprendendo algumas lições de vida com suas próprias criaturas; de uma letra de música que afirma que “os homens são anjos caídos, que Deus mandou para a terra”, ou de outra que se pergunta: “E se Deus fosse um de nós, só mais um estranho em um ônibus, tentando encontrar seu caminho para casa, sem ninguém para falar ao telefone…” e finalmente nos textos lovecraftianos que sugerem que toda a existência humana não passa de delírios de um deus louco que dorme sob os oceanos, e que um dia irá despertar, trazendo o nosso fim.
Todas essas divagações sobre a Criação em particular, e as criações em geral, me vieram à mente enquanto buscava um tema para a minha própria criação, pensando em todos esses deuses imperfeitos e suas criações maravilhosas – e foi então que me ocorreu, sem mais nem menos: o que somos nós, senão deuses imperfeitos, exercendo quinzenalmente nossos pequenos grandes atos de criação, nossa gênese de universos a partir de sopas de letrinhas, dando à luz tudo aquilo que nunca pudemos ser, mas que assim mesmo vive dentro da gente, essas pequenas tragédias, romances, e comédias (porque não?) escritas como ensaio de nossas próprias vidas, momento fugaz onde somos ao mesmo tempo autores, atores e espectadores de nossa própria vida, de histórias que são versões e variações recontadas da mesma história que vem sendo escrita desde o princípio dos tempos.
Mas essa, ah, essa foi só a pergunta que me ocorreu. A resposta está sendo escrita agora mesmo, e continuará sendo escrita, infinitamente. Por todos nós. O que você tem a dizer? Vamos lá, é sua vez, puxe uma cadeira…
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1 resposta
Vou lançar a campanha: Rudá pra Paraty!
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