(Aliás, Ágata, o pessoal está com saudades e pergunta de ti… Vê se manda pra gente um ligeiro pombo correio que nos traga boas notícias!)
O barulho da chuva na varanda.
E a visão noturna da rua, que a essa hora está vazia.
Minha casa também está vazia. Ninguém vem ver a chuva comigo. Ninguém mais ouve a música que toca nos meus ouvidos. É tudo tão sozinho. E é tudo tão bonito.
Acendo um lucky que a Julia esqueceu aqui, só porque a situação pede um cigarro. A fumaça que sai dele é linda na noite fria. As gotas que me acertam vez ou outra são tão geladas. E fora a chuva que cai, silêncio.
Tudo, tudo é tão bonito nesses segundos. Eu sinto que ninguém me vê, e isso de algum jeito faz essa beleza toda ser particularmente minha, como se eu fosse tão bela como a noite ao meu redor. Eu me sinto bela como a noite, eu me sinto parte dessa noite. E ninguém mais vê como são lindas as gotas passando pela luz do poste. E eu quero parar e escrever logo tudo isso pra evitar que o momento me escape, mas não quero parar de olhar pro reflexo da luz nas poças do asfalto ou da irregularidade da calçada. Porque aí sim, o momento me fugiria. Vivê-lo é mais importante que registrá-lo.
Passam três homens apressados pela rua, sem guarda chuva e com os mesmos uniformes. Imagino de onde vieram e pra onde estão indo. Os amo por um momento, assim como amo a sensação de frio nos pés e calor nos dedos – o cigarro vai acabando e eu nem reparei. Os amo assim como amo esse momento, em que tudo parece tão grande, e também tão pequeno. Assim como amo todos esses momentos, a epifania que vem de vez em quando e simplesmente me cerca, me invade, me leva, e que eu tento guardar como jóias na memória.
Porque são em momentos assim que eu que poderia me afogar.
Porque são em momentos assim que eu gostaria de me afogar.
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1 resposta
Agata, suas palavras são lindas, neste conto. Adoro essa percepção extremamente delicada e intensa.
Volte para o clube da leitura!
Bjs
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