Eu estava no pequeno teatro improvisado da escola, quando apertei o play do toca-fitas de Joana. Ela esperava no meio do palco, um vestido azul de bailarina, o cabelo preso atrás da cabeça, o corpo magro se posicionando no mundo, para apresentar o resultado de semanas intermináveis de treino. Eu tinha nove anos quando descobri a sensação de tremor e fragilidade e ela tinha apenas oito quando percebeu que às vezes não importa o quanto você se esforce, sempre haverá alguém que não dá a mínima para isso.
O som impregnava os móveis, as paredes, os rostos ali presentes. Pais, professores, crianças, e o sol do lado fora querendo invadir com pequenos raios a apresentação anual dos alunos de artes da escola. Tudo que eu precisava fazer, após apertar o play, enquanto Joana dançava, era olhar, por trás da cortina, o rosto de sua mãe, sentada entre as primeiras fileiras e depois tentar descrever sua reação a Joana.
E enquanto Joana dava a primeira pirueta com seu pequeno corpo desajeitado, um raio de sol atingiu em cheio o rosto da sua mãe que, de imediato, olhou para baixo, sua fisionomia desfigurando-se para mim, e eu nada mais pude perceber.
Saí de trás da cortina e andei até as primeiras fileiras, mas ela continuava apoiando a cabeça sobre uma mão, sem me deixar ver se sua expressão era de alegria, tristeza ou cansaço.
Então tudo que eu pude dizer a Joana depois foi:
“Ela gostou. Gostou muito. Até chorou.”
Hoje, trinta anos depois, eu já estou cansado de saber como crianças nessa idade mentem. Mas não consigo me lembrar de nenhuma outra mentira que eu tenha contado nessa idade, a não ser essa.
E como era o caso de aprender. Joana aprendeu a brigar comigo.
“Mentira! Que mentira, mentira.”
E eu, com o doce cinismo infantil, que tentamos até hoje imitar:
“Que mentira, Jo?”
“Você mentiu pra mim. Ela me disse que detestou, que eu devia aprender outra coisa. Piano, sei lá. Eu danço muito mal, Bernardo. Não tem mais jeito não. Ela me disse.”
Ela engolia o orgulho. E eu não entendia essa honestidade delas que suprimia por completo a distância natural que separava as suas realidades.
“Mas como?”
“Como, como, sei lá, como. Vou fazer piano agora.”
Depois de brigar, ela descobriu a vergonha e aprendendo a lidar com ela, seguiu, pequena e magrela, o corredor imenso entre acordes desafinados e sombras de fim de tarde.
“Joana, espera.”
Eu gritei, tentando ser seu amigo. Mas enquanto isso, ela, envergonhada, aprendia a me ignorar, e pela primeira vez, antes de outras inúmeras, ela me deixou. E foi ali que aprendi a falar sozinho.
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2 respostas
Caramba Dani, este é o da off-flip! Chega de discussão.
Perfeito!
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