Há poucos dias um trecho do informativo do sebo gerou uma curta, porém nobre, polêmica sobre arte, especialmente música. O bate-bola foi tão amistoso e prazeiroso que o Maurício Gouveia, gerente do sebo, até lembrou do quanto a internet pode aproximar as pessoas e alimentar nossa curiosidade. É que Maurício, apesar de investir muito tempo gerando conteúdo pro site do Sebo Baratos, sente um colossal desconforto diante de computadores. (Definitivamente, ele não é um internauta, por mais que seu trabalho o obrigue a navegar.) Achou até que valia a pena dividir a breve experiência com os leitores deste blog.
1) O LIVREIRO MAURÍCIO DESCE A LENHA NO CARLINHOS BROWN:
“Caríssimos Sinhôs e Sinhás,
Não é carnaval, mas o grito da temporada é “água mineral, me dá água mineral” (confesso que tinha lembrança mais viva da marchinha até o sinistro Carlinhos Brown cometer aquela versão dele) …”
2) O SELECTOR & BAIXISTA NELSON MEIRELLES BRADA EM DEFESA DO BAIANÍSSIMO BROWN:
“Caros Sebo Baratos,
Acabo de iniciar a leitura de mais uma saborosa correspondência de vocês mas, tenho que confessar, uma coisa me chamou a atenção e dessa vez não foram as opções de boa leitura. Acreditando sempre que não devemos ignorar a força e a importância daquilo que se lê ou escreve (principalmente vindo de onde vem), gostaria de tecer alguns comentários acerca do trecho destacado acima.
O ponto é o seguinte: como alguém se dirige aos amigos usando os carinhosos “Sinhôs e Sinhás” e, na mesma frase, qualifica o grande Carlinhos Brown de “sinistro”?? Ou bem se está do lado pitoresco, gracioso e inzoneiro da cultura nacional ou…
A doçura e a simpatia no uso do “Caríssimos Sinhôs e Sinhás” se choca com o hostil e destrutivo termo “sinistro”. Para mim são abordagens incompatíveis!
Gente, “sinistro” é Zé Dirceu, Donald Rumsfield, dengue hemorrágica, prostituição infantil, caveirão, Paulo Salim Maluf, etc…
O Carlinhos Brown pode ser até tachado de ridículo, presepeiro, sem-talento e pretensioso, mas acho que não passa muito disso. Não é o meu acaso, entretanto. Admiro CB como artista e, talvez mais ainda, como simpático macunaíma que ele é. Se para muitos ele encarna o ápice do grotesco e/ou charlatanismo, ok. Como diria meu guru Agamenon Mendes Pedreira, “até aí tudo bem!”. Ainda assim acho imerecido o epíteto acima.
Lembremos que o gajo é lá de Salvador, terra de pelourinhos e de rabos-de-arraia, mas também paraíso do gaiatice, do dengo e da fanfarrice. Como se sabe, baiano não nasce – estréia! Talvez então sua “culpa” seja apenas, e simplesmente, sua baianidade explícita… Faltar-lhe-ia uma postura mais rocker, urbano? A meu ver não, não faria sentido no caso dele. Ser preto & pobre já é alternatividade suficiente por aqui.
Sinistro” é muito além disso, “sinistro” é o Mal, fúnebre e ameaçador. “Sinistro” é o Bispo Macedo, o Eurico Miranda, o/a(s) assassino/a(s) da menina Isabella… Ou, para se ater à área musical, “sinistro” é o Miguel Plopschi, o Tutinha da Jovem Pan, o Manoel Poladian. O Carlinhos está longe disso, meus caros. Ele é um artista, não um “sinistro”. Um compositor, um criador de sons, palavras e ritmos. Pode-se gostar dele (como eu) ou não (como parece ser o caso do missivista), mas ele está longe de causar algum mal à nossa sociedade. E deixemos a pecha de “sinistro” para quem merece: Anthony Garotinho, Monsanto, George Bush, terceiro mandato, talibans, etc, etc.
Mas não vou me alongar mais nessa história não. Queria apenas deixar registrado meu singelo protesto contra essa mijada “en passant” no sapato do mano Brown.
Alguém poderia perguntar: “Era da tua conta meter a colher nessa história de como a gente se refere, ou deixa de se referir, a quem quer que seja?”. Claro que não, apenas exerci meu sagrado direito de zelar pela saúde intelectual da minha correspondência. Calando-me frente a isso estaria, de uma certa forma, comungando com a visão do escriba. Mas, agindo assim, eu (na qualidade de fã, cliente e amigo dos Baratos) estaria incorrendo numa tremenda desfeita com o próprio espírito da casa. Que, não por acaso, é uma das minhas mais importantes fontes do livre pensar.
Abraço a todos,
Nelson Meirelles”
3) A RÉPLICA DO MAURÍCIO:
“Nelson,
Confesso que não gosto do que conheço da obra do Carlinhos Brown, mas é tão pouco o que já ouvi – basicamente hits das rádios, ou “a namorada (tem namorada)” que era tocada ad nauseum nas festinhas de atores que frequentei quando fiz contra-regragem -, que qualquer julgamento meu não passa de provocação. Portanto, partindo pra discussão à vera, é você quem razão, compadre.
Suas ponderações inclusive me levaram a pensar na Adriana Calcanhotto, com quem muitos antipatizam por uma suposta pretensão. O caso é que eu adoro a Calcanhotto (especialmente devido ao “Fábrica do Poema” e à “Marítmo”, impecável), curto pacas a voz dela, acho que tem uma pegada rocker até (no recente “Erasmo Carlos Convida Vol. 2″ ela gravou uma versão porreta de “ilegal, imoral ou engorda”), ainda que admita o quão pretenciosa ela é. Aliás, você deve concordar comigo, Nelson, que pretensão propriamente dita não é defeito, e que mesmo a arte feita por gente das classes mais “humildes” é sempre cheia de referências, que nós – metropolitanos da classa A e B – ignoramos por preguiça e falta de intimidade com esses outros universos culturais. Talvez só não tenha pretenções o instant painting, o fluxo de consciência do Kerouac em “Subterrâneos” (que acho uma merda) ou, sei lá, música aleatória que aqueles malucos da aletroacústica fazem nos cursos de doutorado. Mas quando chamamos pejorativamente um artista de pretencioso de modo geral queremos dizer que a) o sujeito gosta de citar ícones grã-finos ou estabelecer vínculos com a chamada alta cultura e/ou b) o resultado ficou aquém do que os comentários do próprio autor sugerem que deveria ficar. Dentro desta última hipótese, eu acho a Adriana Calcanhoto bastante pretenciosa. Acho que até hoje ela não conseguiu fazer um disco à altura do seu próprio talento. Sempre fico com a impressão de que faltou ir um pouco além. Ou segurar a onda? Não sei. Enfim, sei que gosto dos discos dela – ressalva feita de que não conheço os dois primeiros, de 90 e 92 – e sei que mesmo sem ouvir já não gostei do Carlinhos Brown, que descobri te agradar, no entanto.
Sei também que a partir de hoje meu nariz está menos torcido ao Brown, porque a) se um cara com o teu bom gosto aprova, Nelson, nesse mato deve ter coelho e b) sou grato a este baiano-pós-moderno pela oportunidade de trocar idéias tão luminosas com um despojamento tão maneiro como de fato estamos fazendo neste instante.
Queria até, se você permitir, registrar esta “provocação + réplica + tréplica” no blog do Clube da Leitura. Que tal?
Na verdade, pensei até em te convidar pra gente esticar o papo aqui na próxima noite de terça, antes ou durante ou depois das leituras do clube – os sócios fundadores têm saudades daquele primeiro time… Se você e a Cláudia não estiverem viajando, afinal é dia de enforcar… Mas nada contra o virtual. O lance é bola em campo, seja ele qual for.
Grande abraço,
Maurício”
4) NELSON BATE O MARTELO:
“Caro Maurício,
Fico feliz, primeiramente, por ver que você recebeu as minhas observações da mesma maneira como elas foram concebidas – no campo puramente estético/artístico/filosófico, longe de provocações rasas ou bate-bocas despropositados. Ponto para nós dois, pois não?
)
Na verdade eu fiz essas ponderações em nome da diversidade de opinião que, assim acredito, deve reinar em ambientes bacanas como o do Baratos. Como eu disse antes, se eu tivesse ficado quieto ao ler aquilo eu estaria traindo tanto eu mesmo (por admirar o Carlinhos Brown), como também o espírito democrático que esperava encontrar nestas plagas. E, mais uma vez, fico feliz por ver minhas melhores expectativas confirmadas.
Concordo quando você fala que, em artes, pretensão não é o maior dos problemas. Quando a pretensão desemboca numa produção à altura, ela se justifica plenamente. Exemplo disso há vários: David Bowie, Madona, Caetano, Picasso, Miles Davis, Romário (sim, arte), e outros mais. O problema é quando o próprio artista não “segura a onda” do seu mega-ego e, ao invés fazer desse traço da sua personalidade uma mola propulsora rumo às grandes realizações, se atrapalha todo e sai da pista em louca derrapada. E aí temos os maradonas, os gerald thomas, os terence trent d´arbys, … (deixo aqui de citar artistas nacionais para evitar eventuais melindres pessoais).
Mas, como pensamento final, fica aqui a essência do que eu queria dizer desde o início: é importante dar os nomes certos aos bois. Os artistas, salvo exceções quando eles, de alguma forma, adquirem um “poder real” (política, mídia, interesses corporativos em geral), só podem fazer mal a eles próprios e, vá lá, a seus fãs mais apaixonados. Não haveria, no meu entender, um componente “maléfico” nas suas trajetórias, mas sim de glória e consagração para os bem sucedidos ou danação e tristeza para os que se perderam pelo caminho. Por isso acho que o rótulo de “sinistro” deve ser aplicado a outros tipos de conduta, não àquelas comumente associadas à atividade artística em si. (Muito embora há casos onde ambas as forças – a bela criatividade e a desprezível torpeza de sentimentos – habitam o mesmo corpo. Dizem por aí que Ezra Pound seria um desses, mas realmente não tenho elementos para afirmar que sim ou que não.)
Com relação à sua idéia de publicar essa troca de comentários no blog, por mim “no problem”. Resta saber se isso vai interessar a mais alguém!
)
Hoje, terça, tenho trampo lá no estúdio então não sei se daria pra pintar aí no Clube. Realmente estamos, eu e Claudia, devendo uma visita. Soon come…
Abração,
Nelson”
Artigos Relacionados
Seja o primeiro a comentar
Deixe seu comentário