O professor era genial. O tempo passava voando entre o conteúdo da disciplina e seus sagazes comentários. Ora ríamos ora franzíamos a testa, sempre fascinados pelas acrobacias didáticas que nosso soberano docente conseguia fazer entre cálculos matemáticos e aplicações práticas. Além disso, sabia expor sua vida pessoal numa medida adequada para que o víssemos como um ser humano tangente ao contrário de outros professores que se comportavam como personagens paralelos à pedagogia. Não desperdiçávamos nem uma de suas palavras.
Porque será que havia escolhido essa profissão? Poderia ser um alto executivo, um empresário ou um repórter. Qualquer coisa que dependesse de sua agilidade intelectual, de seu charme e de sua imagem. Sorte nossa, ou melhor, sorte minha, que freqí¼entemente podia observá-lo, indiscretamente da cabeça aos pés, sob o pretexto de assistir a aula. Sonhava com sua voz só para mim, queria lhe contar o meu dia e ouvir o dele. Estava apaixonada, enfim, ocorrência cotidiana nas escolas e faculdades.
Amores que envolvem algum tipo de hierarquia são fulminantes. Alcançam o que há de mais enraizado na estrutura da personalidade, movimentando as profundezas silenciosas do inconsciente. Os arquétipos, antes incomunicáveis, são extraídos para o mundo real como gengivas cortadas abrindo passagem para caninos inclusos. Nesse caso, dificilmente os aspectos negativos são capazes de derrubar o encantamento. Tanto que, num determinado dia, durante uma aula, quando o professor me pediu para fazer o gráfico no quadro, aceitei o desafio. Esbarrei no professor, é verdade, como se a passagem fosse estreita, para que minha lavanda pudesse alcançar suas narinas. Calmamente, elaborei o que foi pedido. O mestre acrescentou informações. Continuei de pé ao seu lado. Ele enriqueceu a apresentação com mais um exemplo. Seu hálito era bom e sua energia também. Me aproximei suavemente. Ele pausou, sugerindo que agradecia minha participação mas eu estava perto demais para voltar atrás e sua boca parecia me chamar.
Cada risco intencional valoriza a existência e uma noite entre dois dias pode ser o elixir suficiente para cada eventual decepção. Baseada nesta teoria ordenei aos meus braços que abraçassem o professor.
Silêncio na sala de aula. Provavelmente alguns tentavam prender a respiração para evitar que se tornasse audível. Era como se o tempo houvesse parado, entre o antes e o depois, e o presente cristalizado como uma lembrança perene.
Fiz uma aproximação de extrema sensibilidade, numa sequência tão sutil que o professor se comportou como se houvesse sido transportado para uma estrada no campo… na primavera… e houvéssemos parado o carro para namorar sobre o capot.
E o capot, era a mesa do professor…
Ele me beijou deliciosamente, esquecido dos boquiabertos felizes mortais. Semi-deitada, apoiei um pé sobre a cadeira. Ele escorregou a mão ascendente por minha coxa, empurrando a saia florida. De olhos fechados, eu imaginava os olhares sobre nós.
Os jovens em sala já respiravam ofegantes, numa mistura de pesadelo e alucinação.
Meu parceiro afastou minha roupa e se encaixou como uma luva. Me afagou as vísceras. Adivinhava meu tempo como fazia com minhas dúvidas durante a aula. Fazia o seu tempo igual ao meu até desconectar, lentamente, guiado pela própria natureza – momento esse divino.
O professor sussurrou no meu ouvido enquanto cobriu minhas pernas com a saia florida e saímos abraçados, encerrando a aula.
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2 respostas
Deborah, como sempre mais uma preciosa peça lÃrica q a gente aproveita mais na introspecção silenciosa do q no burburinho agitado das rodas. E este aqui tem tudo: narrativa, lirismo e o volteio final da imaginação livre.
“Cada risco intencional valoriza a existência e uma noite entre dois dias pode ser o elixir suficiente para cada eventual decepção. Baseada nesta teoria ordenei aos meus braços que abraçassem o professor.”
Uau, q parágrafo Deborah! Aqui o conto sofre uma maravilhosa inflexão da reflexão lÃrica para o estranhamento, anunciando o insólito final. Um platonismo virado ao avesso…
Valeu! Este tem q ir p. uma nova antologia…
Quem não transou com um professor em alguma aula imaginária levante o dedo…
Magistral, Deborah!!
Sutilissimos os cortes que v. dá sem falr que
“afagar as vÃsceras” é o pleonasmo mais louco
com que me deparei.
Parabéns ,parabens, parabéns
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