Após o decreto que tinha limitado o número de habitantes em NY, viver em Manhattan era até solitário. Cama, trabalho, uma cerveja e depois dormir. Algumas pessoas me estranhavam…cerveja, na era das bebibas sintéticas, dos neuroprazeres? Não posso fazer nada, sou um romântico… do modo mais arcaico possível. Esse romantismo arcaico depois que Ann me deixou, não me permitiu procurar mais ninguém.
Isso mudou com o telefonema de Carl. Ele falava animado em desobediência civil, em mudar as relações humanas. Aceitei. E de repente na minha cobertura havia Carl e outro revoltado convivendo comigo. Não falávamos muito, mas só pela presença física de outros seres humanos já era algo diferente.
Dois meses depois, mais um decreto governamental. Todos os moradores eram obrigados a aceitar em casa o novo protótipo de serviçal. Por mim foi até bom, porque como anfitrião, me obrigava a arrumar Jogar as latas de cerveja fora. Carl falou de um tal Orwell, sei lá…os livros são tão arcaicos como a cerveja e Carl os lê. Acho que por isso não tivemos até agora nenhum problema na nossa convivência doméstica.
Abrimos o recipiente, e de lá saiu um gel transparente. Tinha a forma de uma mulher. Era transparente, mas não era translúcido. Coloquei a minha mão para experimentar… o serviçal me identificou como seu novo dono… para não haver problemas registramos nossas três vozes como se fosse a minha… como era protótipo… conseguimos fazer o registro sem problemas.
Nas primeiras semanas, a casa ficava brilhando. Mas por questão de segurança, Carl disse que de agora em diante seríamos obrigados a ficar em cômodos diferentes. A serviçal poderia nos dedurar. Voltei à solidão de sempre… Carl ás vezes imitava a minha voz, zombando do aparelho. Das primeiras vezes fiquei temeroso, pois soube de várias notícias de prisões neurais e comas induzidos pelo governo… geralmente causados pela descoberta de clandestinos como Carl e o seu colega. Mas depois não liguei muito.
Algum tempo depois notei que alguma coisa na serviçal estava diferente…ela estava aumentando de tamanho… em um final de semana quando estava sozinho em casa, notei que à medida que ela absorvia a sujeira, aumentava em volume. Chegou com 1,60 de altura… agora estava com de 1,80. De graça, mesmo que por decreto governamental só poderiam nos ter enviado essa porcaria mesmo. Em breve minha rotina iria ser alterada drasticamente por causa dessa sucata tecnológica…
Os Tigers iam jogar nesse dia. O colega de Carl estava deitado no sofá… ele não viu… sentou em cima da serviçal. Assim que entrei na sala (era a primeira vez em meses que nos encontrávamos em um mesmo recinto). Ele foi morto em segundos, sem nenhuma marca de sangue. Com a minha presença, ela identificou o cara como sujeira e no processo aumentou de tamanho para 1,90…
Quando, chocado pensei que nada pudesse piorar a minha situação…o serviçal após a morte deu outra expansão. Se dividiu em dois. Agora tinha dois serviçais de 1,60 na minha sala.
Fiquei horrorizado e gritei. Pedi a Carl que deixasse a minha casa. Ele conseguiu sair antes que a cópia fosse para o outro aposento.
…
Agora estou aqui. Me lembro de Ann. Minha casa está limpa e não tenho vontade de nada. Parece que o tempo parou enquanto entorno minha cerveja.
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11 respostas
Caramba, q conto louco Gloria! Muito imaginativo. Não captei na hora. Precisamos aumentar o estoque de arcaicas cervejas para poder desfrutar melhor contos como este. Parabéns!
Obrigada, Guilherme!
o engraçado é que tive esse sonho… com algumas adaptações esrevi o texto. Fazia mais de dez anos que tinha lido um livro, que de repente ma apareceu em sonho. Comentei com o pessoal na loja e na rodada seguinte leram uma parte de Solaris. Era para ter levado esse texto antes… hehehe
adorei neném. saudades!
abração!
gloria adorei o conto! ter uma multiplicação de seres limpando tudo e só nós resta o ambiente esterilizado e a tortura de nossa solidão, aqui o inferno não é os outros e adorei. beijos
Muito boa a imaginação e a crítica no texto. Gostei de como vc retrata o isolamento das pessoas dos nossos dias a ingerência dos governos e empresas em nossas vidas privadas…
Parabéns e espero novos textos
Adorei Gloritcha, viagem total!!!! A “sujeira” faz parte do viver, não é mesmo?
Mil beijocas
Neuromancer total!!!
Longa vida a William Gibson, Shadowrunner, Johnny Mnemonic e os irmãos Wachowski.
Valeu Glóin, Amei!!!
Gostei!!
Meus queridos, muito obrigada pelo retorno. Bjos e saudade dos que estão longe…
Bem diferente hein, Glorinha!! Seria, digamos, um neuroconto??!! Uma viagem…..!É muito neuro mesmo!!
Bjkss!
Adorei as referências a Carl, Ain e Orwell só aí dá bastante pano pra manga… Fiquei curioso em saber quem era o outro revoltado vivendo na cobertura…Enfim, adorei a oportunidade que me deste e o privilegio de ter lido esse fantástico conto…sonho…delírio do real que grita…de só pra sós… Beijão
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