Amarelo acordou com sua roupagem de um dourado fosco e sua rotineira dor-de-cabeça. Não sabia bem ao certo por que tinha que se levantar, ou melhor, por que haveria de viver, aquela vida tão desbotada.
Chegou sala-de-estar, onde todos já saboreavam um delicioso café-da-manhã. O primeiro a lhe enxergar foi o Vermelho, que com seu costumeiro tom forte vociferou: Bom dia, Amarelo! Amarelo com seu habitual mau-humor se ateve a fazer um muchocho com a boca, como quem dissesse: O que há de bom neste dia? E sentou-se mesa com seus amigos, e tomou seu café com leite e comeu seus biscoitos.
Amarelo foi o último a se sentar e o primeiro a sair daquela mesa. Jamais participava daquele alegre bate-papo que ocorria todas as manhãs. Também nunca se despedia. O Verde, cheio de esperança que é, insiste sempre em se despedir do amigo: Tchau Amarelo, tenha um bom dia! Amarelo, em sua infelicidade, olha para o Verde, e só consegue se lembrar de vômito de cachorro. Ele é muito triste, mas pelo menos tem dignidade de não dizer ao amigo a que o seu verde lhe remete. Sim, tem dignidade! Tem orgulho de se amargar sozinho, nada diz de sofrível a uma outra cor, amiga sua. Sabe que só o seu semblante em si, amarelo encardido que é, já é doído suficiente de se aturar.
Amarelo sai rua e começa a caminhar lentamente, isenção total de pressa. Apesar de todo amor com que as outras cores lhe tratam ele não consegue resistir, é um infeliz. O problema são os seres humanos.Ah, ingratos!
Todas as vezes que alguém dá um sorriso sem graça, dizem logo que é um sorriso amarelo; se alguém desiste de algo, este alguém amarelou; se algum pobre coitado solta um pumzinho inocente, pronto! Vai se descobrir o culpado através de uma mão amarela, até isso. E sempre se ouve a pergunta: “ O que seria do amarelo se todos preferissem o vermelho?”
Todos preferem o vermelho! Ah, não, não sejamos injustos, nem todos. Alguns preferem o verde, ou o azul, o branco, quiçá o preto! O amarelo, ninguém, e ele sabe disso, donde provém sua enorme dor. E nem ao menos o deixam em paz, sim, isto ainda seria suportável, mas não, ficam associando-o s piores mazelas humanas, por exemplo, ao pus, que a tantos enoja. O sangue, todo metido e vermelho, anda sempre com o pus, mas deste ninguém tem nojo, muito pelo contrário. Amarelo já percebeu o quanto são prestigiados aqueles que doam sangue. Amarelo tem certeza que este estímulo doação de sangue se deve cor do mesmo, vermelho, é por isso tamanha deferência. Já o pus…coitado! Também quem mandou ser amarelo?
Até os sinais de trânsito: vermelho, pare; verde, siga; já o amarelo, atenção, colocaram-no ali fingindo prestigiá-lo, mas no fundo, mais humilhação…Ele não é sim, nem não, ele ta sempre no meio. Motoristas e pedestres se desiquilibram ao depararem com ele, em seu íntimo nunca sabem com certeza se vão ou se ficam. O amarelo sempre tem um cheiro leve de angústia.
É inacreditável, até se você nascer bicho, se for amarelo não foge ao estigma. Veja o pinto, já tinha uma mãe famosa, mas mesmo assim não perdoaram. Ao virem que a criatura era amarelhinha já lhe arrumaram um apelido criativo para lhe tirar a dignidade.
Ia Amarelo caminhando, cheio destes negrumes no pensamento…Eis que veio a chuva, eis que veio o sol, e de repente lhe aparece o arco-íris, pai de todas as cores. Amarelo aproveitou para lhe fazer um pedido: Gostaria de ter uma visão mais feliz de sua vida; o Vermelho, o mais exibido de todas as cores, era sempre cheio de vida; o branco, todo limpinho, metido a besta, cheio de não-me-toques, não é que virou símbolo da paz mundial? E o preto? Quanto glamour! Tomou para si os mistérios da noites e ainda estabeleceu que as noites seriam dos amantes. E ele? E ele? O amarelo. Não, não dava mais para amarelar.
Amarelo estava com sorte, aquele era o dia do aniversário do arco-íris, e ele estava tão bem…tão lindo! Não queria um amarelo tristonho a estragar sua festa de cores.
Foi aí que apareceu Ana Maria. Ana Maria que desceu do arco-íris. Ana Maria que pulava amarelinha, e era linda em seu pequeno biquíne de bolinha amarelhinha.
Amarelo perdeu a cor. De repente a chuva cessou e o sol brilhou de um amarelo reluzente. Era um biquine de bolinha amarelinha, tão pequenininho, mal cabia na Ana Maria. E Ana Maria continuava a pular amarelinha, com o maior desprendimento, sem cuidados…E aquelas bolinhas amarelinhas no corpo de Ana Maria. Cuidado! Ana Maria endireitava o biquine, que ao pular displicentemente, se enrolava em seu corpo.
Era a vida, era o máximo, aquele corpo bronzeado de Ana Maria. Amarelo explodia de felicidade, nunca pensou que seria homenageado daquela maneira. Amarelo se esforçava para não ficar Vermelho, jamais daria esta confiança a seu amigo, de ficar assim, naquele lugar…no corpo da sua Ana Maria. Amarelo não estava muito acostumado a tais intimidades com mulheres, mas se saiu bem. Sua volta por cima foi triunfal.
Sua turma de amigos Cores ao virem aquela explosão de alegria e sensualidade criaram logo uma canção. Ficou famosa, tocou muito!
A única piada da estória era se figurar como bolinha amarelinha. Mas desta vez Amarelo nem se importou, ele estava seguro do quanto era macho. É por isso que hoje o amarelo é símbolo da energia, da alegria, do verão. Presente do arco-íris, num dia de inspiração.
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1 resposta
nossa adorei !!!!!!!!!! me peguei viajando ,sonhando acordada
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