“Profissão, por favor.”
“Ahn?”
“Profissão. Qual é a sua profissão?”
“Ih, agora o senhor me pegou.
“Como assim, senhora?”
“É que eu não sei qual a minha profissão.”
“Tudo bem, então eu vou colocar na sua ficha “sem profissão”.”
“Não, não, não! Não se trata disso…eu tenho profissão, só não sei qual.”
“Desculpe, senhora, mas eu não estou entendendo. A senhora quer se candidatar quê, exatamente?”
“Esse é o problema…eu não sei!”
O homem suspirou, olhou para a mulher sua frente e se esforçou para ser tolerante.
“OK, então vamos fazer o seguinte: a senhora senta ali naquele cantinho , e quando se decidir vem falar comigo.”
“O senhor está me colocando de castigo?”
“Não, minha senhora! É que existem outras pessoas na fila, esperando para serem atendidas!”
“Desculpe, mas eu não consigo fazer nada sob pressão…”
“O homem suspirou de novo (desta vez mais forte), contou até dez e retomou o diálogo.”
“OK, senhora. Eu vou ajudá-la. Vamos fazer que nem o esquartejador, está bem?”
A mulher o olhou, interrogativa.
“Vamos por partes…rárárárárá!”
Ela permaneceu olhando para ele, desta vez muito séria.
“Brincadeirinha…bem, então, a senhora é formada em alguma coisa?”
“Claro que sou formada! Fiz o normal na escola DET.”
“Escola o quê, senhora?”
“DET, meu senhor, dê- é- tê. Ficava lá na Praça Sêca…é verdade que faliu, mas era uma escola normal, quer dizer, normal duas vezes, né? Rárárárárá!”
“Desta vez foi ele que a olhou, sério, enquanto ela emudecia.”
“Tem nível universitário?”
“Bem…isso depende do que o senhor considera nível universitário. Eu passei pelas faculdades de biologia, filosofia e letras. É bem verdade que eu não terminei nenhuma, mas eu passei mais tempo na universidade que muita gente formada por aí. Ou seja: sim, eu tenho nível universitário, apenas não sou formada em nada…”
Ele marcou um “X” no quesito “ nível superior incompleto”.
Ela fez beicinho, mas não disse nada.
“Prosseguindo…experiência anterior?”
“Ah, esse é o meu ponto forte! É aí que eu me garanto! Tenho muita experiência, muita mesmo!”
“Poderia então enumerá-las com o máximo de precisão possível, POR FAVOR?”
“Bem, vamos lá! Em primeiro lugar, devo dizer ao senhor que fui cantora. Cantei em várias bares, festas, e participei de vários festivais. Dei aula de artes para crianças e adultos, cursos de literatura em favelas, fiz roupas e acessórios. Fui garçonete em diversos bares quando morei em São Paulo, programadora visual em Palmas e representante de várias prefeituras do Pará quando morei em Brasília. Que mais…ah, fui produtora cultural num grande sindicato, divulgadora e produtora de vários shows e peças teatrais, e vendedora de quase tudo, quando o negócio apertava.”
O homem a olhou, desolado. Impossível encontrar um padrão naquela mixórdia.
“Bom, e se servir para alguma coisa, tenho vários cursos na área de música, teatro, artes plásticas, literatura, dança, acrobacia…sei até andar de perna-de pau! Mas não vai me botar vestida de palhacinho pra distribuir panfletos no Largo do Machado, hein?”
Ele ergueu as sombrancelhas, a olhou fixamente e respondeu:
“Já é o suficiente, senhora. Sua ficha será encaminhada.”
“Ah, muito obrigada! Tenha um excelente dia!”
Assim que ela virou as costas ele pegou a caneta pilot vermelha e escreveu num canto da folha: DESNORTEADA SEM RUMO MALUCA.
E colocou a ficha na gigantesca pilha empoeirada que habitava a sua mesa, enquanto se preparava para chamar o próximo.
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1 resposta
Quase um ano depois, leio o conto! Adorei, hilário! E sinal dos tempos!!!
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