Albertina tinha 42 anos, três filhas, dois casamentos nas costas e um marido que mudava de emprego tantas vezes quantas o sol teimava em nascer. Seu pai chamava-se Alberto. Sua mãe, Cristina. Seu marido a chamava de Alberta. Seus amigos de Tina. No trabalho era apenas Albertina.
Albertina entregava uma nota de dois e uma moeda de um real para um homem de terno escuro que passava a roleta, quando uma garota que ouvia música alta no seu MP3 player tocou em seu ombro e apontou para o motorista do ônibus ao lado que acenava discretamente.
Eram sete horas e dezenove minutos quando Albertina viu o homem que lhe sorria. E foi necessário apenas três segundos para que reconhecesse Zé Carlos e lentamente lhe abrisse um sorriso amplo, descrente do que lhe acontecia.
A garota leu os lábios de Albertina que falavam:
“Não acredito, Zé.”
O ônibus acelerou, deixando Zé Carlos para trás. Albertina tentava procurá-lo, dentre os ônibus marrons, azuis, amarelos que enchiam Copacabana. Nos seus pensamentos, a última vez que se viram numa rua estreita e escura da baixada fluminense num adeus muito breve, que significava apenas que desejavam se ver em pouco tempo. Albertina viajou para Salvador, para visitar a avó que estava doente. Acabou ficando por lá durante quinze anos. Voltou pro Rio, casou, teve a segunda e a terceira filhas, e mais de uma dúzia de empregos.
Sua vida inteira passou por sua cabeça, até aquele momento, em que se reencontrariam e não saberiam como dizer o que deveriam dizer um para o outro.
No dia seguinte, Zé Carlos passou a roleta e recebeu o troco das mãos ressecadas de Albertina. E todos os dias, religiosamente, Zé Carlos, após largar o serviço, pegava o ônibus de Albertina, qualquer que fosse o destino, sentava no banco � sua frente e durante toda a viagem os dois conversavam interminavelmente, sobre o que fizeram e sobre o que não fizeram em suas vidas.
E numa dessas vezes, a mesma garota que ouvia seu Mp3 player reconheceu Albertina, abaixou o volume da música e pôde escutar a seguinte conversa:
“Faz quantos anos, Albertina? Que a gente não se vê?”
“Vinte e cinco.”
Reparou que ela tinha a voz ligeiramente embargada.
“Você acha que teria dado certo?”
“Como eu posso saber, Zé Carlos?”
“Talvez não seja tarde ainda…”
“É tarde. Já estou casada e tenho três filhas.”
A garota sabia que ela dizia, na verdade: nunca é tarde. Nunca é tarde, Zé Carlos.
“Quantos anos suas filhas têm?”
“Vinte e cinco, dezoito e treze.”
“Bom, pelo menos você encontrou alguém rápido. _ ele disse olhando para o lado como se olhasse para o passado.”
“Não, não encontrei. _ ela respondeu num reflexo, desviando de seus olhos.”
Ele soube então que não foi só Albertina que havia ficado para trás. E não conseguiu dizer mais uma só palavra. Sentiu uma vergonha tão grande que parecia uma criança no jardim da infância, repreendida pela professora mais bonita. A garota do Mp3 player não escutou mais a voz dele, nem a voz dela, nem a música que tocava no seu pequeno aparelho. Só os ruídos dos carros e buzinas da rua Barata Ribeiro misturando-se aos remorsos e aos pensamentos hipotéticos de cada um que viajava naquele 125 numa noite qualquer de novembro de 2007.
A garota desceu no último ponto da rua. Parada na calçada, fingindo esperar o sinal abrir, observou os dois sentados no ônibus, sozinhos, aguardando dar oito horas para recomeçar a percorrer o trajeto contrário, como se pudessem voltar no tempo, vinte e cinco anos, em busca do que perderam.
E fazer tudo diferente.
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1 resposta
adorei ter a perspectiva da garota observadora e os pequenos gestos de arrependimentos. otimo conto
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