Eis que, sem aviso prévio, ele fitou-me com seus olhos de ressaca esbugalhados e nada sóbrios, e então começou a vomitar, a vomitar devagar e pausadamente, como se esperasse que eu ruminasse cada palavra que ele expelisse:
“Não posso estar certo se pelo menos isso provém univocamente da minha essência. Não posso estar certo se pelo menos isso provém univocamente da minha essência, compreender até que ponto fui contaminado de automaticidade ao tentar furtar-me mecânica das engrenagens da Sociedade, retroalimentada ingenuamente pelos inorganismos humanos. A que remeteria a tal famigerada personalidade, a qual deveria, ao menos em tese, responder a fatídica pergunta ‘quem sou eu?’, caracterizar o ser ou o não-ser? Ah, corresponderia expressão-de-uma-parte-ínfima-mas-dominante-do-eu, quase me esqueço. Já que toquei no assunto, e esse tal eu, o que mesmo era para ser? Para não fugir do lugar-comum, usa-se dizer que seria aquilo constantemente inconstante, toda aquela metamorfose ambulante. Você sabe: tempos de efemeridades, mutabilidade deixou de ser insanidade para virar moda global. Mas o que eu não entendo é que. Ou será que não é que? Que? Qual? Quando? Como é que alguém definiu que, ao menos no infinitésimo de um intervalo de tempo, eu sou eu, você é você, não somos vários, e todo mundo, não sendo todo mundo, acreditou, acreditaram? Como podemos (nós?) crer em democracia de nossas partes, de nossos átomos, quando na verdade vivemos ditadura sangrenta de certas tendências (melhor: fraquezas) nossas, modeladas a cada instante pelo meio? Não há para onde fugir: somos a encarnação de todas as possibilidades, atitudes e sentimentos, nós podemos (e queremos, ah, no fundo queremos) ser tudo, ser todos, tudo ao mesmo tempo e, com quase que a totalidade do nosso potencial oprimido pelo mundo, acabamos a vaguear robotizados por trajetórias algorítmicas, não-arbitrárias, e sem óleo nas juntas”.
Ele cessou de falar num espasmo e, nesse momento, pude me ver refletido em seus olhos. Fiquei confuso com a profundidade dos seus questionamentos mas, a priore, aquilo tudo parecia muito absurdo. Dizer que a cada momento coexistiam dentro de cada um todas as idéias e sentimentos possíveis por mais paradoxais que fossem entre si era como se negasse a alma, como se todos fossem essencialmente iguais e as circunstâncias moldassem tudo. Pensei cá comigo, isso não está certo, não faz sentido, deve ser essa fixação dele pela Física Quântica, a física das possibilidades, aquela que diz que cada sistema possui infinitos estados até que um observador intervenha e o determine por si só. Ele então me interrompeu.
“Ser ou não-ser: eis a ausência de questão se, ao invés de não-sermos, nós fôssemos”.
Analisando melhor, a teoria dele fazia todo o sentido do mundo: esse vazio, esse nó no peito que a gente sente e não passa, talvez seja isso, essa limitação de não poder fazer de tudo, de não poder ser todos e sentir todas as sensações existentes. Espera, espera um momento. Eu estava sendo contraditório! Eu estava sustentando duas opiniões mutuamente excludentes! Vejam só a situação: eu me tornando múltiplo para analisar a nossa suposta pluraridade! É isso, a metalinguagem da alma, o duplipensar: aquele neologismo introduzido por George Orwell em 1984! Ou melhor, duplipensar não: multipensar, multiviver!
Ele proferiu, então, as derradeiras palavras.
“Não sei você, mas eu, esse tal de eu que todos falam e são deve ser outro, não eu.”
Eu já não tinha certeza se era eu. Talvez fosse. Ou não. Era e não era. Mas não havia contradição, ela simplesmente não existe quando todos os seus poros de percepção estão harmonizados com toda a energia do Universo.
Não posso, não, eu não posso. Não posso estar certo se pelo menos isso provém univocamente da minha essência.
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2 respostas
Que bonito. Parabéns.
Parabéns é tão clichê, não?
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