Ela vinha andando pelas ruas de Paris. Era sua primeira visita à Cidade. Procurava uma carrocinha de crepes. Lá estava uma, em frente à Galeria Lafaiete. Primeiro compraria o crepe pois não sabia se a carrocinha ainda estaria lá quando saísse da grande loja. Comprou um de chocolate. Havia pensado que seria um envelope de massa recheado mas era uma espécie de picolé quente, pequeno e com pouco recheio. Não gostou do sabor pois a massa não dissolvia na boca. Gostou de experimentar e jogá-lo no lixo.
Olhava as pessoas que passavam e não conseguia sintonizar sua intuição. Em sua própria cidade, quando olhava para um rosto, sempre tinha alguma impressão. Podia imaginar se seria uma boa pessoa, talvez com medo, uma pessoa sem personalidade ou uma pessoa capaz de fazer mal a alguém. Em Paris, sua intuição estava ausente. Ninguém se revelava além da aparência. Ninguém lhe dizia nada. Faltava o sexto sentido que legitimaria as percepções terrenas, tornando possível uma avaliação mais consistente do ser.
Talvez, por isso, seus cinco sentidos parecessem mais intensos. Ela era o Lobo Mau que via, ouvia e cheirava melhor.
Uma moça de casaco comprido, com a fina cintura marcada, passou com os cabelos presos contra o vento gelado. Os tons sóbrios de Paris faziam contraste com as cores cítricas que coloriam sua cidade natal. Especulava sobre o baixo consumo de roupas pelos franceses. Roupas sóbrias e elegantes certamente duravam anos, uma vida inteira, talvez até mais de uma geração. Por certo os transeuntes nem mesmo submetiam suas vestimentas ao sabão. Do jeito que eram compradas, eram usadas, usadas e usadas, ao contrário das blusinhas verde limão que ela conhecia tão bem e que não sobreviviam a duas lavagens.
Entrou na Galeria e subiu ao último andar. Um teto multicolorido de cacos de vidro coroava uma lanchonete curvilínea. Pouquíssimas pessoas ocupavam as muitas banquetas. Observou um sujeito que deixou um cigarro inteiro queimar sem tragá-lo. O cigarro parecia ser sua única companhia. Lembrou de sua própria solidão. Se ele não estivesse esperando alguém, que logo chegaria com as compras em sacolas, poderiam se conhecer. Preferia ser abordada mas abordar significava um passo à frente numa fila interna que quase não se movia. Maldita infância sem bom senso para selecionar conceitos. Conceitos promovidos a preconceitos à medida que cristalizavam no desleixo da reflexão.
Seria romântico ou seria ridículo. A rejeição é ridícula. A qualquer momento ele sentiria a flecha do seu olhar e procuraria o arco. Logo encontrou e demonstrou o prazer que sentiu por ter sido correta sua percepção. Ele sorriu para ela por cima de meias-taças. Ela sentou-se ao lado dele e disse o trivial não variado: “Meu nome é Kinía. Você está esperando alguém?”. E ouviu o melhor que poderia desejar: “Sim. Há muito tempo espero por alguém especial.”.
Uma troca de palavras insossa, para quem lê e para quem escreve, mas para protagonistas esse é um diálogo de esperança e de bom dia para sempre.
Se filme fosse, holofotes para teto caleidoscópico. Se vida, mais um tango em Paris.
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