Depois de passar por diversas ruas e vielas estreitas e poeirentas, o velho parou à porta de um botequim . Desengatou as tiras que o prendiam ao carrinho lotado de canos finos e muito compridos.
_ À por aqui que fica a toca da raposa?
Os homens na porta do bar se entreolharam e começaram a rir. Ele não entendeu e não gostou.
_ Qual é o problema?
_ Tá preparado pra enfrentar a fera?
Os homens riram de novo.
_ À que a raposinha é meio nervosa…mas ela vai te tratar bem, porque tu tá cheio de cano, e a raposinha adora esses canos.
Pegou as indicações, amarrou as tiras no corpo e seguiu. Estava perto. Ainda bem, porque mesmo tomando aqueles remedinhos que o ajudavam a não dormir nem se cansar, estava muito cansado. O céu estava bem escuro, e ele começou a sentir os pingos da chuva no rosto. Se apressou.
O bairro era bem afastado, e as poucas casas estavam praticamente abandonadas, destruídas pelo tempo. Era fácil entender o porquê. Ali ficava a divisa com um antigo aterro sanitário, quilímetros e quilímetros de lixo revirado, queimado e finalmente abandonado. Agora não passava de um grande lodaçal , coberto de mato e exalando um cheiro fétido o tempo inteiro. Em dias de chuva, melhorava um pouco, mas ainda assim era quase insuportável . Não havia ninguém nas ruas.
Chegou na casa indicada, procurou uma campainha, não achou, bateu palmas. De dentro da casa vinha uma música diferente, parecia uma coisa antiga. Uma velha colocou a cabeça para fora de uma janela. Ele entendeu o apelido.
A mulher era baixa, muito magra e muito branca. Os cabelos, curtos e ralos, eram vermelhos , ferruginosos. O rosto parecia uma fotografia aérea, com centenas de micro-rugas se entrecruzando, e os olhos duas bolotas azuis, muito grandes e embaçados pela catarata. Foram eles que o intimidaram.
_ O que é?, perguntou, irritada. Mas sua expressão mudou quando viu o carregamento.
Ele a ouviu destrancar a porta várias vezes, e aguardou.
Ela abriu o portão e , sem olhar para ele, foi direto para os canos. Começou a alisá-los com carinho.
- Que maravilha…como são bonitos…há anos não acho desses! Onde você os conseguiu?
_ Num antigo hotel que foi demolido, dona.
_ Pode entrar, pode coloca-los dentro do galpão…você vai ser muito bem recompensado…
Ela estava agitada, começou a ajudar a empurrar o carrinho em direção ao enorme galpão que havia nos fundos da casa. Quando entraram, a chuva desabou. O homem ficou surpreendido com o que viu. Dentro do galpão centenas de canos, de tamanhos, tons e materiais diversos ocupavam quase todo o espaço, aglomerados de diversas maneiras e em diversas posições .
__ Dona, porquê tanto cano junto?
Ela suspirou, inconformada com a ignorância.
_ Meu senhor, nunca ouviu falar em arte? Isso não é um monte de cano junto, como o senhor está dizendo. Isso são esculturas, esculturas! Nada está aí por acaso, veja se entende! Cada escultura dessa representa uma pessoa que foi importante na minha vida, e todas se relacionam entre si. Veja esta, a primeira que fiz. Não lhe parece um corpo imenso, opressor, aterrador, e sem cabeça?
Ele concordou, mudo.
_ Pois é a minha mãe. Eu gostaria de tê-la degolado, sabe, mas já que não foi possível…
Sorriu para ele, piscando o olho. Ele sorriu, também. Sem graça. Mudo.
Descarregou o carrinho, e foram para a casa. Enquanto ela pegava o dinheiro ele ficou ali na soleira da porta, vendo a chuva e ouvindo a música.
Quando ela voltou, ele não resistiu e perguntou;
_ Dona, sem querer ser indiscreto, mas que música é essa? Eu nunca ouvi nada parecido…
_ À Mahler. À muito antigo, mas é muito bom.
Ele pegou o dinheiro, cumprimentou com a cabeça e saiu. A chuva tinha diminuído um pouco, mas agora chovia todos os dias, já estava acostumado. Ajeitou as correias no ombro e partiu. Riu sozinho, lembrando das esculturas da raposinha. Os canos nunca mais seriam os mesmos.
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1 resposta
Well said.
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