Rio, 40 graus. O ronco do ventilador está insuportável. O rapaz do conserto disse que trocar o rotor ia sair caro e era melhor comprar um novo. Mas este ventilador é especial, dos antigos, com suas pás de ferro e a cúpula de bronze. Não se fazem mais ventiladores como este. Dá um sentido ao meu escritório. Mas o barulho me tira atenção da cliente. Acabou de chegar. Loura, 35 anos, mais ou menos. Mais para mais do que para menos. Ela disfarça a idade com sua maquiagem barata, falsa. Todas as louras são falsas, sobretudo as falsas louras. Acende um cigarro. Tosse. A fumaça se dispersa pelo ambiente. Está um calor, ela diz, afetada, não tem ar-refrigerado? Sinto vontade de mandá-la merda, sua loura estúpida, mas me contenho. Sou alérgico a ar-refrigerado, respondo secamente. A lufada do ventilador faz esvoaçar sua saia branca – ela está toda de branco, como uma iemanjá vagabunda. Imagino que ela esteja sem calcinha. Este tipo de mulher não usa calcinha nem quando está menstruada. E deve ter raspado a boceta inteira, a vadia. Não deve existir nada entre sua saia e sua vagina dilatada. Ela cruza e descruza as pernas, simulando um nervosismo histérico. Mas eu sei que é teatro, este tipo de mulher tem sempre o controle da situação. Ela me conta sua história, para gringo ouvir. Seu nome é Kátia, mas posso chamá-la de Flávia. Kátia (Flávia) quer me fazer crer que morava no Irajá, mas há um ano mora em Copacabana. Conheceu um figurão que lhe montou um apartamento, quitinete. Este tipo de mulher não brinca em serviço. O figurão rodou, acharam sua cabeça numa lata de lixo numa esquina em Copa. A polícia agora está atrás dela que se refugiou na casa de uma amiga na Belfort Roxo. Loura safa, esta. Ela jura inocência, é claro, como ela culpada? Quer minha ajuda para achar os facínoras cortadores de cabeça. Cortar cabeças é papo de drogas, não mexo com drogas, mocinha. Meu negócio é adultério, golpe do baú. Artigo 171 também é a minha praça, mas drogas é assunto de guri. Ela fala que não tem droga na história coisa nenhuma, que ela nem sabe o que é um baseado. Ela diz que o figurão era um homem direito, ficha limpa, religioso. Comerciante do ramo das farmácias de manipulação. Seu único problema era ser casado. Este tipo de mulher mente com uma precisão matemática. Manipuladora é ela. Ela quer me fazer crer que o figurão perdeu sua cabeça porque estava rezando na igreja. Este tipo de mulher é fatal. Chave de cadeia. Ela diz que os facínoras estão atrás dela. Que mulher! Louraça belzebu. Fugindo da polícia e dos bandidos e absolutamente dona da situação, tragando seu fumo e montando seu filme. Ela tinha um figurão e agora quer um figurante para seu showzinho particular. Tenho vontade de pegar o telefone e discar- Alô polícia, levem esta piranha daqui. Ela me acha com cara de otário? Tenho vinte anos no ramo, meu 38 lustradinho dentro da gaveta. Já usei, já fiz terno de madeira para alguns vagabundos. Ela descruza e cruza novamente as pernas. Dá outro trago no cigarro – não tem cinzeiro? Perdão, nobre senhorita, eu não fumo. Ah, desculpe, não sabia, ainda bem que não tem ar-refrigerado… A piadinha me tira do sério, tenho vontade de esganá-la. Este tipo de mulher, quando brinca, se torna mais perigosa. Ela atira a guimba pela janela e abre o maço mais uma vez para pegar outro. O figurão defunto sem cabeça não ensinou modos a esta garota. Mas este gesto, pelo menos, foi autêntico, e vejo melhor seu rosto sob a maquiagem que a fumaça escondia. Não fosse marafona, seria uma mulher bonita. Está na sua cara que conhece bem os homens. E a bunda? Quando entrou, ela deixou cair o isqueiro apenas para me insinuar seu grande traseiro, mas eu fui mais rápido e peguei o isqueiro antes. Dei de cara com seus peitos grandes, o decote, obviamente, estava estrategicamente aberto e deixava mostra seu sutiã vermelho. Sem calcinha, mas com sutiã vermelho, é típico deste tipo de mulher. Vamos falar de coisa séria, mocinha, por que acha que os facínoras decapitaram seu figu…, digo, seu companheiro? Sumiram certas substâncias do laboratório, há uma quadrilha do mercado negro de produtos quimio-terapêuticos, remédios psicotrópicos-robotizantes para todo tipo de paranóias conspirativas, de pânicos doentios, de transtornos obsessivos, de histerismos descabelados, de déficits cibernéticos de atenção, de anorexias dietéticas, de bulimias convulsivas, de serialismos matadores de aluguel. Este tipo de mulher está sempre surpreendendo. Como você sabe tudo isso, mocinha? Está em todos os jornais, ela responde, com sua cara de Miss Calcutá Poltergeist, e eu fico nervoso, tenho vontade de puxar agora mesmo meu 38 lustradinho, mas então é ela que saca mais rápido, que pressiona o gatilho primeiro e vem o tiro final, a grande cena, que esta estrela de pornôs decadentes deixou para o final. Uma lágrima escorre de sua íris esverdeada pela lente de contato, seu olhar se torna suplicante como uma vira-lata faminta. Só você pode me ajudar, eu não tenho mais ninguém a recorrer, vi pelos seus olhos que o senhor é um homem generoso, não se pode confiar em ninguém em Copacabana. Não irá se arrepender… Eu tento relaxar de novo, abro a gola da camisa, sinto o suor escorrer pela minha mão, que aberrante calor. Maldito ventilador, eu devia ter mandado trocar por um desses novos, com pás multicolores de plástico da Casa e Vídeo. O ventilador gira com seu ronco animal, eu me levanto, vou até a janela para abri-la mais e vejo lá embaixo a cesta de lixo da Comlurb, e fico imaginando se ela é grande o bastante para minha cabeça idiota, minha cabeça estúpida, minha cabeça absurda.
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