(Inspirado em um fragmento do romance “A Metafísica dos Tubos”, de Amélie Nothomb)
– Quando as coisas mudam, tinham que mudar de nome, você não acha, tia? Minha professora me disse que tem uma tribo de índio assim… que as pessoas mudam de nome de tempos em tempos porque de tempos em tempos as pessoas mudam, né? Então… assim… quando eu nasci, me deram o nome de Estela. A minha professora disse que Estela quer dizer estrela. Eu não acho que eu tenho cara de estrela. Será que a minha mãe achou quando eu nasci que eu tinha cara de estrela? Ou então ela olhou pra minha cara e pensou: “essa aí vai ser uma estrela”. Você sabe, tia, porque minha mãe escolheu esse nome?
A tia era Flávia, irmã mais nova de Carina, mãe de Estela. Tinha seus vinte e poucos anos, cabelos pretos, curtos, batidinhos na nuca, olhos verdes, pele clara. Estela, menininha muito esperta de oito anos, quase reproduzia as feições da tia em seu rosto emoldurado por cachinhos negros que iam até os ombros, um rosto em que brilhavam olhinhos verdes muito vivos. “Uma pena” – diziam – “que a menina tivesse que esconder tão belos olhos por trás das grossas lentes dos óculos.” Os adultos deviam era guardar estes pensamentos para eles. Os olhos de Estela acabaram, com o tempo, perdendo parte da vivacidade depois de ouvir tantos comentários destes.
Flávia estava passando um tempo na casa da irmã, viera de Petrópolis para estudar no Rio de Janeiro. Todos os dias buscava a sobrinha na escola, levava para casa, dava almoço, dava lanche, levava para brincar no parque, enfim, cuidava da menina até a noite, quando Carina e Felipe chegavam e ela ia para a faculdade.
– Hein, tia, você sabe por que minha mãe me deu esse nome?
– Ah, Estelinha, sua mãe sempre gostou desse nome, achava bonito.
– Poxa, então quer dizer que ela me chamou Estela sem nem saber se eu tinha ou não cara de Estela.
A tia sorriu por dentro. “Toda criança passa por essa fase contestadora: aquela conversa iria render.”
Flávia nunca gostara de crianças, afinal, criança é esse serzinho de outro mundo com quem se deve falar numa língua diferente, com uma entonação diferente, adotando restrições vocabulares e temáticas. Além disso, deve-se estar preparado para ouvir sentenças extremamente non-sense. Conversar com uma criança, enfim, exige muita técnica e paciência. Técnica, até que Flávia tinha, não tinha era a paciência de ter que traduzir em criancês a sua língua, os seus assuntos, de falar mais agudinho, de ter que medir as palavras, de ter que aceitar verdades absurdas. Criança é este ser elástico com um pé na realidade e outro na fantasia (e a cabeça, nunca se sabe).
Com Estela, Flávia resolveu fazer diferente. Percebeu que a menina era esperta, que tinha potencial. Criança é esse pedaço de papel, não digo branco, mas pardo, onde podemos escrever, de lápis bem clarinho mas não imperceptível, uma história bonita ou feia. Ela pensou que se usasse com a menina aquela fala idiotizada de nhenhenhéns e meu amor, teria como única companhia durante a maior parte do seu dia uma idiotinha insuportável. Decidiu, pois, que trataria Estela como se trata qualquer ser humano normal, falaria com ela no mesmo tom, trataria de variados assuntos num vocabulário irrestrito (exceto quanto ao uso de palavras chulas: questão de respeito) e decidiu que – o que daria muito mais trabalho – questionaria as verdades absurdas da criança. Assim teria uma companhia bem mais agradável, talvez até uma amizade. Criança é uma esponja, é um espelho, é tantas outras metáforas, bem como é metáfora para tantas coisas.
– E nem você tem cara de Flávia não, tia… Flávia parece flúvio… água fluvial é água de rio, não é?
Então… você não tem cara de rio… nem tem cara aguada. Mas nem rio tem cara de rio também… rio tem cara de blunfx. E estrela tem cara de brilume.
- Estela, não é assim que funciona. Já pensou se todo mundo resolvesse dar o nome que bem entendesse s coisas? Você acha que mesa tem cara de mesa, por exemplo? Só que alguém achou que tinha e deu esse nome. E se ninguém concordar, ninguém se entende.
- Então é uma convenção, né, tia?
Estela gostava de usar as palavras difíceis que a tia lhe ensinava. Flávia orgulhava-se de ver que a sobrinha as aprendia e as usava com propriedade. Tinha uma memória excelente, bastava que a tia explicasse uma única vez e a sobrinha jamais se esquecia.
A menina continuou:
– Que nem chão chama chão, mar chama mar, poste chama poste, maçã chama maçã, lápis chama lápis, livro chama livro… ih, tia… Sabia que livro em inglês é book? Engraçado que os ingleses resolveram chamar livro de book e os brasileiros chamam livro de livro… Aí eles não se entendem s vezes, só quando um estuda a língua do outro, que nem eu tô estudando inglês na escola… Nossa, tia! Deve ser muito difícil inventar os nomes, né?
A tia afagou-lhe os cabelos e disse, num tom tão distraído que sua voz soou quase etérea:
– É fácil botar palavra nas coisas. Difícil é botar as coisas nas palavras.
A frase caiu como um piano na cabeça da conversa: silêncio. Flávia imediatamente caiu em si e arrependeu-se da frase exageradamente abstrata… Apesar de muito inteligente, Estela era só uma criança. O silêncio persistia. No rosto da menina via-se o esforço mental que ela fazia para desdobrar a frase da tia. O silêncio, a esta altura, já era mais que desconforto, já era quase dolorido, e a tia já planejava mudar de assunto com o clássico “e aí? como foi o dia na escola?”. Mas, de súbito, o rosto da menina iluminou-se num sorriso com covinhas, e a sua voz docinha rompeu o silêncio:
– Sabe, tia… toda vez que eu olhar prum rio… eu vou lembrar de você!
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