(inspiradonum fragmento do livro “A Educação de mum bandido”, de Edward Bunker)
Naquela noite mal pôde dormir. Seus pensamentos reviravam-se em sua cabeça enquanto contava as batidas de seu coração quase saltando de seu peito, esperando o tempo passar. Finalmente sairia daquele lugar fétido e maldito. Oito meses em razão de outro roubo, após inúmeros furtos e pequenas malandragens que o haviam levado para trás das grades várias vezes.
_ Xavier, por Deus, se endireita, meu filho. Agora, que você arrumou uma moça boa… Aproveita o que Deus lhe deu. Chega de dar desgosto pro seu pai…
A voz de sua mãe, que o visitara apenas uma vez na cadeia, já se perdia entre suas memórias mais recentes. Tentou se endireitar várias vezes, sem sucesso. Esfolava o pé andando de um canto a outro da cidade procurando qualquer trabalho, qualquer bico que lhe desse algum dinheiro e a sensação de honestidade. Mas nada. As possibilidades de emprego para um ex-presidiário são tão raras quanto suas chances de permanecer com a mesma mulher ao voltar para casa. E quanto a Sueli? Uma moça boa, como dizia sua mãe, quanto tempo suportaria um ex-criminoso e desempregado fodido sem qualquer perspectiva de mudança?
Duas semanas depois da prisão, seu pai morrera de infarto. Ou de desgosto, como todos diziam. Depois disso, ninguém mais o visitava a não ser sua irmã caçula, Jéssica, crente, a única com um fio de esperança em sua recuperação. E foi seu rosto minguado que viu na manhã chuvosa em que voltaria para sua rua, sua casa. Juntou seus poucos pertences, um livro do Paulo Coelho, e abraçou com força sua solidária e paciente irmã, enquanto atrás de ambos se fechavam novamente aqueles portões pesados e enferrujados.
_Sueli mandou esse presente para você, Xavier.
Ele abriu a caixa como se aquele momento pudesse durar para sempre.
_Por que ela não veio?
A irmã abaixou a cabeça, como estava acostumada a fazer durante tanto tempo e deu de ombros.
_Não sei.
A caixa, embalada com uma fita azul, guardava um sapato marrom, tamanho 40. Xavier sentou no meio-fio e o calçou com cuidado, numa revolução interior, como o primeiro passo de um bebê, o primeiro movimento de um aleijado em recuperação. Nunca havia calçado um sapato tão confortável, bonito, macio. Parecia sapato de gente rica, pensou. Devia ter sido caro. E disse para Jéssica:
_Deve ter custado muito dinheiro.
Ela deu de ombros, dentro de uma camisa branca num tamanho duas vezes maior que seu corpo magro.
_Não sei. Mas que é bonito, isso é.
_Por que ela não está aqui?
_Você já perguntou isso. Não sei.
Xavier andou de um lado a outro com orgulho de seu sapato novo e envergonhado por ter as calças remendadas e a camisa rasgada debaixo do braço.
_Está bonito. – disse a irmã enquanto tirava o pente da bolsa para pentear seu cabelo.
_Onde está Sueli?
_Olha, ela deixou uma carta comigo. Toma.
Xavier olhou o envelope branco, a letra arredondada e tremida da namorada de vinte anos de idade. “Para Xavier”, estava escrito. Olhou para os olhos molhados de Jéssica e seus ombros encolhidos, guardou o envelope dentro do livro do Paulo Coelho e disse:
_Sabe o que o pai disse uma vez?
Jéssica deu de ombros.
_A vida é aqui. É essa liberdade. E ele estava certo. A vida é agora. É esse sapato macio que a Sueli comprou. E você sabe o que vou fazer?
Ela deu de ombros.
_Vou procurar um emprego. E casar com Sueli.
Xavier fez sinal para um ônibus e ambos sentaram-se abraçados no último banco, sem falar mais uma palavra, os olhos fixos na paisagem renovada.
No final daquele dia, a trocadora do ônibus encontrou um livro debaixo de um banco. “Paulo Coelho” disse em voz baixa e sorriu. Entre suas páginas um envelope com os dizeres “Para Xavier”, escritos numa letra tremida e arredondada. Levou para casa e lá deixou durante meses, anos, até que sua filha, pegou o livro e leu a carta. Que dizia apenas isso:
Querido Xavier,
Vou voltar pra casa porque minha mãe está muito doente e precisa de mim. Comprei esse sapato para que você não machuque mais os pés procurando trabalho. Quando sair da prisão, me procura. Meu endereço é: Rua das Rosas, 21, Piripiri, Piauí.
Da sua
Sueli.
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