(texto originalmente lido no Clube de 30 de outubro de 2007)
Só entrava espremido e andando de lado no apartamento de minha mãe. Além do sofá-cama sempre aberto, um armário de quatro portas com espelho, uma cristaleira com bibelís de porcelana, uma estante de parede inteira com livros, discos, partituras, havia uma dourada e ornamentada harpa bem no meio do único címodo. Musicista da orquestra do teatro Municipal do Rio de Janeiro, mamãe quando não estava no fosso ou no palco, estudava compulsivamente seu triangular instrumento. Viúva há alguns anos, sempre a visitava às segundas-feiras, minha irmã mais velha as quintas-feiras e meu irmão mais novo, quando ia, aos sábados. Convivia com esta selva de objetos inanimados sem compatibilidade de gênios. Mas no breve tempo em que fui morar com ela, por causa de uma litigiosa separação de casal, não conseguia suportar o cheiro de papel velho e principalmente a presença física e espiritual daquela milenar escultura musical. Para o senso comum, seu som lembra astros celestiais, seres angelicais, mas para mim era a verdadeira trilha sonora do inferno. Cada beliscada que o polegar e o dedo indicador de Dona Valquíria davam nas cordas, cada acorde, pedalada ou recheio de glissando, me enlouqueciam como um dente cariado por excesso de açúcar com abscesso na gengiva. No começo saía do recinto, ia dar umas voltas no quarteirão e voltava mais aliviado. Um dia comprei no camelí da esquina um Cd player com fones de ouvido para escutar rock pesado, em outro, protetores de natação acrescidos de pequenas de pequenas bolinhas de algodão. Mas a coisa foi crescendo a tal ponto que a simples visão das mãos enrugadas da velhota acariciando aquelas tripas esticadas, me fazia ouvir gotas de notas, tornando aquele antiquário um lugar infausto. Meu cérebro, neurínios, dentritos o axínios haviam gravado em alto-relevo aquele denso murmúrio aquático mesmo que eu estivesse no mais longínquo recanto. A música é sempre intrusa, se infiltra em nosso corpo por um órgão sem membranas, molda-o. Errante, vagando nu pelos corredores e escadas do edifício como um anjo oblíquo, me vi no terraço do prédio de braços erguidos e punhos cerrados em cima de uma caixa d”água. Ao vento, deito meu corpo ao vão ereto em ângulo agudo, de um cinza escuro quase surdo. Os arpejos de mamãe me levaram ao suicídio. Imóvel, com o olhar retocando o teto branco hospitalar, só escuto minha respiração.
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