Samantha é massagista. Ela atende em Copacabana e cobra 50 pela massagem simples, 70 se incluir manual, 90 com oral e 120 pelo programa completo. Samantha, aliás Maria Odete, é natural de Três Rios, tem 22 e está há 3 anos no Rio de Janeiro. Ela veio para a Capital convidada por sua prima Albertina, que chegou primeiro, arrumou um emprego de caixa de supermercado e se fixou na casa de um namorado na Ladeira dos Tabajaras, perto do trabalho.
Maria Odete teve alguns namorados em Três Rios e conheceu desde os 16 anos os esportes sexuais. Mas foi com um namorado, a quem dera o maior afeto, que engravidou e, revelia dos pais, muito tradicionais, e com ajuda solitária de Albertina, que acabou abortando. Esta experiência lhe foi tão traumática que Samantha, aliás Maria Odete, entrou num longo período de abstinência.
O supermercado em que trabalhava com sua prima era mais caro e servia classe média endinheirada. Seus dotes físicos especiais, se não lhe permitiram arranjar um namorado como Albertina, bem menos atraente, lhe valeram muitas cantadas, gentilmente recusadas por ela. Os clientes que se encantavam pela moça a intimidavam pela distância social, e Maria Odete/Samantha retribuía os galanteios com fugidia simpatia.
Apenas um rapaz conseguiu chamar a atenção carinhosa da moça. Ele fazia compras tarde da noite, quando o supermercado ficava vazio. Era elegante na maneira de vestir e dizia sempre boa noite antes de colocar os produtos sobre a bandeja da caixa. Sem saber a razão, Maria Odete, ou Samantha, tinha a vaga impressão de que o rapaz preferia sempre a fila de sua caixa. Certa vez, num inesperado momento de aproximação, Odete comentou que a gola de sua camisa estava virada ao contrário e o rapaz agradeceu com um sorriso que a fez lembrar um ator de televisão. Nunca teve coragem, no entanto, de perguntar seu nome. Então, ela inventou um para ele: Carlos. Carlos passou a freqüentar os sonhos diurnos e noturnos de Maria Odete, porém, por uma dessas fatalidades esquisitas da vida, deixou de fazer compras no supermercado.
A moça também não demoraria muito tempo como caixa. Conheceu Roberto, vulgo Betão, um quase conterrâneo norte-fluminense com quem afinal ela podia conversar. Betão era natural de Além Paraíba, estava há 10 anos no Rio, gostava de contar piadas e comprava no supermercado pagando sempre em dinheiro. Com faro profissional, ele logo percebeu os talentos de Samantha e certo dia, quando lhe convidou para tomar um sorvete, lhe propôs pagar um curso de massagista no SENAC. Samantha aceitou e fez com muita dedicação o curso, considerando uma boa oportunidade de melhorar de vida. E em pouco tempo, graças desenvoltura de Betão e gratidão de Samantha, ele conseguiu convencê-la a abandonar seu período de abstinência.
Betão propôs a Samantha alugar um apartamento em Copacabana onde ela poderia atender seus clientes. Ele ficaria com 80% do ganho e ela com o restante. Samantha considerou um bom negócio, pois Betão pagaria o aluguel, as contas, o celular e até o salão. Com a sobra, a nova massagista poderia comprar o vestido preto básico com decote ousado que cobiçava há tempos, botar um piercing de pedrinha no umbigo e pagar o curso de reflexologia que ficou faltando na sua formação.
O começo foi difícil, mas Betão ajudou Samantha a simular a melhor maneira de tratar os clientes. A melhor maneira era sempre a mais rápida, não perder tempo nas partes não vulneráveis e atacar os pontos fracos. A maioria dos homens que vai massagista, dizia Betão, tem ejaculação precoce e gozam tão logo os testículos ou o ânus são massageados. Betão também lhe ensinou algumas estratégias de autodefesa, inclusive uma navalha que fica escondida numa caixinha ao alcance da mão. Samantha foi uma aluna exemplar e em pouco tempo já atende de 10 a 15 clientes por dia, ganhando uma boa grana.
Com sua parte, Samantha compra roupas e manda dinheiro para a família. Continua se encontrando com Albertina e juntas batem fotos para enviar aos familiares. Eles continuam pensando que Maria Odete, aliás Samantha, ainda trabalha no supermercado.
A maior dificuldade de Samantha em sua profissão é a exigência de que, como massagista, ela tome as iniciativas, enquanto o cliente relaxa, algo que Samantha não estava acostumada, pois em sua terra os rapazes são mais ríspidos e viris, s vezes mesmo brutos, e cabe a mulher apenas se entregar. Samantha costuma começar pela massagem dorsal, e acontece muitas vezes que o cliente relaxa tanto que acaba dormindo na própria maca. Dessas ocasiões Samantha jamais tira proveito, pois acha desonesto mexer na roupa dos clientes, apesar de Betão ter lhe mandado expressamente vasculhar a carteira e tirar uma parte da grana, mas nunca toda, de modo que o cliente fique na dúvida.
Apesar de ser uma excelente e bem sucedida massagista, Samantha está infeliz. Ela não conseguiu se afeiçoar por nenhum de seus clientes, mesmo entre os mais fiéis. Albertina havia lhe dito para cuidar bem dos mais ricos e vistosos e fornecer mesmo massagens gratuitas a alguns deles, mas a verdade é que todos, velhos e jovens, gordos e magros, bonitos e feios, lhe parecem iguais. Samantha consegue ser rigorosamente profissional e rejeitar com educação os pedidos que considera mais repugnantes ou aqueles que Betão proibiu (transar sem camisinha ou fazer sexo anal). Até o momento, nenhum forçou a barra e a vida continua.
Também com Betão a relação esfriou, e agora a transa passou a ser profissional, uma vez por mês, como parte do negócio. É verdade que Betão tem outras parceiras, o que para Samantha no início foi uma decepção e agora é apenas um alívio, pois desde que ela adiante o combinado, ele não a perturba.
Samantha se distrai nas horas vagas pensando em Carlos, o rapaz do supermercado que ela nunca mais viu. Quase toda noite Samantha circula em torno do supermercado em que trabalhou, naquele mesmo horário em que Carlos costumava fazer compras. Ele deve ter mudado de bairro, ela imagina. O Rio de Janeiro é tão grande, se fosse em Três Rios haveria alguma esperança de encontrá-lo.
Samantha nem sabe direito o que faria se esbarrasse com ele na rua. O que ela poderia lhe falar? Como um rapaz bem educado daqueles se interessaria por uma interiorana como ela? Teriam algum assunto em comum? Talvez por isso, ela fantasie sobre Carlos como um novo cliente, marcando um horário e surgindo de surpresa na porta de seu apartamento. Neste caso, Samantha não se envergonharia e, como boa profissional que é, lhe faria a massagem secreta que vem preparando para este momento mágico que, no entanto, nunca chega.
Samantha, que é uma moça religiosa, chegou a ir igreja de São Judas Tadeu, no dia do santo, para fazer este desejado pedido de reencontrar Carlos. A cada novo cliente que liga, quando ela percebe uma voz mais jovem no celular, imagina que pode ser o seu Carlos, e se prepara e perfuma, até que a desilusão se instale quando abre a porta. Mesmo nesses casos, por mais diferente de Carlos que seja o cliente, Samantha faz a massagem com zelo profissional.
Eis então que, um mês depois de ter ido igreja, um rapaz de nome Marcelo lhe ligou e Samantha ouviu uma voz abafada e grave pedindo um horário. Ele só podia depois das dez da noite que era o final do expediente de Samantha. Mais um, depois de um dia cansativo, pensou ela, mas mesmo assim aceitou, pois faltava pouco para fechar a parte de Betão.
O sinal na porta tocou quase onze horas, quando Samantha já estava se preparando para ir embora, achando que o cliente não viria mais. Quando abriu a porta um homem com cerca de trinta e cinco anos, cabelo raspado e blusa social suada estava na porta. Desculpe o atraso, ele falou enquanto Samantha olhava a gola de sua camisa virada ao contrário, tive que sair tarde do trabalho, explicou. Era o Carlos, ela pensou, era ele mesmo, um pouco mais gordo e um pouco mais velho, mas com certeza era o rapaz do supermercado. Um certo desnorteio tomou conta de Samantha, que subitamente ficou sem saber o que dizer, nem como proceder. Com o coração batendo aceleradamente o conduziu até ao quarto. Aparentemente, no entanto, Marcelo não reconheceu a moça ex-caixa de supermercado. Estava afobado e falava muito, explicando que era a primeira vez que vinha fazer uma massagem, que estava muito estressado por causa do trabalho, que tinha tido um torcicolo, etc. Já no quarto, um pouco constrangido começou a se despir de costas para Samantha, sempre falando e, quando afinal estava apenas de cuecas, se virou e não entendeu nada ao ver a massagista já nua, deitada sobre a maca, de olhos fechados.
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1 resposta
Achei esse conto maravilhoso e surpreendente.
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