Não demorava muito para que, entre duas somas, eu erguesse a cabeça para contemplar aquela que me mandava para a tortura. Sua beleza me deixava pasma. Eu lamentava apenas seu brushing arrumadinho, que imobilizava seus cabelos meio longos numa curva impertubável cuja rigidez significava: eu sou uma executive woman. Entregava-me então a um exercício delicioso: despenteava-a mentalmente, dando liberdade quela cabeleira de esplêndido negror. Meus dedos imateriais conferiam-lhe um admirável negligé. Ás vezes eu exagerava, deixando-lhe os cabelos um tal estado que ela parecia ter passado uma noite louca de amor. Esta selvageria tornava-a sublime.
Deu-se então que Fubuki me surpreendeu em minhas atividades de cabeleireira imaginária:
“Por que está me olhando dessa maneira?”
“Estava pensando que em japonês se diz ´cabelo´ e ´deus´ da mesma maneira.
“´Papel´ também, é bom lembrar. Volte a seus papéis.”
Minha hesitação mental se agravava a cada hora. Cada vez menos eu sabia o que devia dizer ou deixar de dizer. Estando em busca da cotação da coroa sueca do dia 20 de fevereiro de 1990, minha boca tomou a iniciativa de falar:
“Que pensava ser mais tarde, quando era pequena?”
“Campeã de arco-e-flecha.
“Lhe cairia bem!”
Como ela se calasse, continuei:
“Eu, quando era pequena, queria um dia ser Deus. O Deus dos cristãos, com D maiúsculo. Por volta dos cinco anos, entendi que minha ambição não podia ser realizada. Decidi então baixar um pouco a bola e tornar-me o Cristo. Ficava imaginando minha morte na cruz diante da humanidade inteira. Aos sete anos, conscientizei-me de isto não aconteceria. Mais modesta, decidi tonar-me mártir. Fui fiel a esta escolha durante muitos anos. Mas também não funcionou.”
“E depois?”
“Você sabe: fui trabalhar na contabilidade da Yumimoto. E acho que não poderia descer mais baixo que isto.
“Acha mesmo?”, perguntou ela, com um estranho sorriso.
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