(Este conto foi lido numa das primeiras reuniões do Clube, em julho do ano passado. Como os autores que participaram do último desafio ainda não me mandaram o arquivo ponto-doc, escolhi um dos textos lidos pelos quais tenho mais carinho. E quem sabe com esse chamego a Deborah não reaparece pra gente matar a saudade da nossa mais lispectoriana associada?)
Havíamos discutido e nos frustrado como sempre. “Tenho medo de perder você / Seria melhor se nos odiássemos” ” mas em nada disso acreditávamos. Tratava-se de um jeito piegas que muitas vezes nos desarmou. Porém, ultimamente, o recurso andava falhando. A manipulação crínica, como se sabe, tem pernas curtas. Sedução à prova, amor sob júdice. Nenhum exemplo real de felicidade poderia converter a disputa pela razão em consenso. Onde estariam as afinidades? (Aquelas, que nunca se revelaram desde que nos conhecemos).
O outro lado da moeda da ineficiência e da superficialidade da relação era a possibilidade de, bem ou mal, passar por cima da onda sem levar caldo. Assim, apesar de ser meio-de-semana, fui atrás de esquecer e passar bons momentos. De preferência longe dali. Não muito longe. Encarei uma estrada para a cidade vizinha. Todos os relógios do mundo faziam suas tarefas monótonas enquanto eu pensava como um disco arranhado sobre os labirintos em que nos metemos e quando me dei conta havia chegado. O sinal fechou e eu assisti a passagem dos pedestres. Eram poucos mas me impediram de avançar. Uma breve espera nada divertida. Um homem que andava com dificuldade atravessou, sacudindo os braços, a cabeça e o corpo, com a sincronização de uma bateria tocada em câmera lenta. Eu teria ficado mais comovida se minhas emoções não estivessem tão ocupadas com meus próprios dissabores. O sinal abriu e precisei esperar ainda alguns instantes para que o sujeito chegasse ao outro lado.
Protocolo de admissão no hotel – OK. Janela para piscina com coqueiros ao redor ” OK. Mudança de ares ” OK. Sair do quarto ” OK. Sair do pensamento obsessivo ” Vamu cum kalma.
Um dia inteiro de sol e silêncio… Ausência de rostos conhecidos… Indiferença ao horário… Drinks alegóricos… Santos remédios…
O saguão era acolhedor sim, com três sofás em “u” diante da larga escada de madeira escura que levava aos quartos. Havia uma mesa-de-centro baixa e quadrada diante dos sofás e, sobre as mesinhas laterais, “abajures” de corda com cúpulas de linho. Notei uma presença discreta e tímida. Sentei e folheei uma revista. Ele me observava e eu devolvi o olhar, alguns segundos a mais do que o esperado. Me encaminhei para a escada, ele me seguindo com os olhos, e percebi uma respiração especial pela minha presença. Subi sob a análise anatímica do desconhecido. Seu olhar fixo me encorajou a colocar em prática um comportamento insólito para os meus hábitos e padrões de prudência. Parei, antes de chegar ao final da escada, e girei em sua direção, legitimada por uma intenção lúdica. Algumas situações, como o carnaval, fazem do chão em que pisamos um palco e autorizam uma regressão na idade cronológica. Foi por me sentir assim que, com a coordenação motora felina, sentei sobre um degrau. O corremão estava lá, solidário. O vestido escorregou displicentemente. Eu não conseguia pensar no próximo passo, quanto mais numa seqí¼ência, mas uma música interna conduzia meus movimentos. Movimentos pequenos, ingênuos até, mas graciosos e valorizados pelo contexto. Ofereci, a mim mesma, aquele olhar masculino. Clichê infalível para aventuras e marcante para sair da rotina. Levantei-me com elegância e lhe dei as costas caminhando para o meu quarto no andar superior enquanto voltava a ser a pessoa previsível de sempre. Liguei o som e preparei a banheira imaginando águas borbulhantes e vapor suficiente para me transformar em sonho.
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2 respostas
Obrigada pela surpresa tão boa de encontrar aqui o meu conto. Beijos!
deborah geller???
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