(Este foi o conto vencedor da rodada de 8 de janeiro. No desempate, Márcia disparou na frente e, com seu voto, premiou também a Carmen.)
“Não, Laura, não foi isso que eu quis dizer, é que me parece importante saber que sentimentos essa história te traz, que associações ela provoca.”
“Ser comido por um jacaré?”
“À.”
“Não sei ao certo. Pois, ao mesmo tempo que esta história me causa um tremendo mal-estar, paradoxalmente, me excita.”
“O que você define como se sentir excitada?”
“Excitada, ué? Atraída por uma história assim, tão visceral: ser comido por um jacaré, imagina! Até sonhei esta noite com a cena. Só que na historinha que montei na companhia de Morfeu, eu sentia um tremendo tesão de me imaginar sendo sugada por aquela boca tão grande, mordiscada no cangote por aqueles dentes tão pontiagudos e afiados, escorregar por aquele corpo viscoso como num grande tobogã até o fim daquele apetitoso rabo longilíneo e sinuoso; todo insinuante em sua carapaça de macho. Ou seja, no filme que montei em meu sonho o gênero não era drama nem tragédia, mas um fogoso porní zoofílico. Que comédia, não? Será que estou assim tão a perigo, precisando de um homem e seu pênis erectus deslizando e me penetrando pelos tecidos cavernosos ao invés de ficar fabulando ser possuída por um ser verde de rabo torto?”
“Fale-me um pouco mais sobre isso.”
“Do quê, de estar me sentindo a perigo, carente?”
“À.”
Laura ficou se perguntando se aquele tipo de conversa estava mais pra um balcão de botequim do que propriamente um divã. Mas, aceitou o desafio e continuou com sua elocução procurando dar um tom mais sério ao seu relato e disfarçar sua aflição. Tentava, através deste recurso, parecer um pouco mais madura do que sabia não ser.
“Pois é, este sonho me deixou muito intrigada. Fiquei me perguntando o que teria me levado a este tipo de enredo já que, apesar de gostar muito do mundo selvagem, acho que cada animal, tanto nós, quanto eles, devem habitar jaulas independentes. Talvez essas idéias tenham sido influência de um livro que acabo de ler intitulado: “A Vida dos Animais”. Nele há uma passagem onde se discute até aonde vai a mistura entre homens e animais. Sobre não transarmos com eles, mas comermos eles, por exemplo. Será por isso, então, que inverti a relação e me vi sendo comida por um animal?”
“À possível.”
Otávio sempre com aquelas respostas em-cima-do-muro. Em mim, a necessidade de dizer algo que o tirasse daquela indecisão.
“À muito comum na roça os homens se aproveitarem dos animais em seus exercícios libidinosos. Dizendo de forma curta e grossa: chegam a enrabar um jumento. Você seria capaz de se comportar dessa maneira, Otávio?”
Otávio: o analista almofadinha. Fiquei ali imaginando aquele homem vestido sempre formal, de camisa social, mangas compridas dobradas e enrabando um jegue. Mal consegui disfarçar o sorriso malicioso que escorria pelo canto da boca. Mas, Otávio não caiu na minha provocação e responde com toda aquela fleuma típica de um analista bem treinado.
“À difícil dizer, Laura, nesses casos qualquer resposta que eu te desse seria apenas especulação.”
Quando percebi que Otávio não iria cair no meu joguinho, resolvi aliviar.
“Vou te contar uma piada que ouvi outro dia pela boca de um ativista ecológico: Dois amigos homossexuais resolvem acampar a beira de um rio. À noite, na hora em que estão indo dormir, um deles vira pro outro e diz: “Nossa, a bimba é chique mesmo, hein? Até o slepping bag é Lacoste!”. Entendeu, Otávio? A cabeça era a única parte do corpo q ainda não havia sido mastigada pelo jacaré que entrou na barraca e engoliu um deles.”
Finalmente, consegui desarmar Otávio e o vejo rindo, longe daquela imagem de analista blindado que tenta me vender. Atitude que me encoraja a continuar brincando.
“Quem sabe esta noite não fantasio em sonho uma orgia com o King Kong e suas mãos peludas?”
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1 resposta
Olha, é muita imaginação. Adorei “analista blindado”.
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