(Na votação este conto ficou empatado com “Zoológico”. Márcia venceu no desempate.)
Sabrina ajeitava os peitos siliconados dentro de um sutiã rendado vermelho um número menor enquanto pensava no que havia deixado pra trás no ano que se despedia. Uma cidadezinha pacata no interior de São Paulo, uma família conservadora, colegas de colégio que lhe batiam, um professor que o defendia e Pedro, o único amigo de infância.
Sabrina, que carregava na bolsa a carteira de identidade com o nome de José Carlos Azevedo, passou a adolescência sonhando com o dia em que veria os fogos no reveillon de Copacabana, numa cobertura na Avenida Atlântica, bebendo champanhe acompanhada de alguém que lhe carregasse no colo e lhe beijasse a mão ao cumprimentá-la. Não conseguira tudo que sonhava, mas veria os fogos na praia de Copacabana, com as amigas com quem dividia um conjugado na Barata Ribeiro. E, como a noite era uma criança, achava que tudo poderia acontecer.
- Você é maluco, Zé Carlos. Ir para o Rio de Janeiro? Como você vai sobreviver? Onde já se viu, sair de uma cidade tranqüila, desse sossego todo, abandonar sua família, e ir para o Rio de Janeiro, sem conhecer ninguém, sem saber fazer nada!
A voz de Pedro ressoava no meio da mistura de música, explosões de fogos de artifício e os gritos alucinados das colegas de apartamento.
- Sabrina, vamos… tamos atrasadas…
Jogou na bolsa um mini estojo de maquiagem, um pente, vinte reais, uns pacotes de camisinha e saiu, usando um vestido branco curto que realçava suas curvas e sua lingerie vermelha.
- Essa cidade vai te devorar vivo, Zé.
O que é? Vou ser comido por um tubarão ou coisa parecida? Eu sei me virar…
Junto a dois milhões de pessoas caminhando lentamente quase todas na mesma direção, segurando flores, garrafas de espumantes baratos e caros, copos descartáveis, sonhos para o ano que se aproximava, Sabrina se equilibrava entre a saudade que lhe molhava os olhos e o calor que destruía sua maquiagem.
- Você não é daqui, não é?
O homem se aproximou de Sabrina enchendo seu copo com um espumante barato.
- Vamos brindar ao ano novo! Qual o seu nome?
Sabrina, ela disse cheia de confiança.
- Sabrina, vem pra cá, _ suas amigas gritavam já perto da areia.
- Não Sabrina, vem pra cá comigo, vem.
Sabrina foi. Bebeu, perdeu suas amigas de vista, não sabia o nome do homem dez centímetros mais baixo que lhe segurava a cintura, mas não quis saber, disse-lhe o preço, ele reclamou, falou que era caro, ela retrucou, dizendo que era noite de ano novo, ele lhe deu um soco, chamando-a de traveco barato e se misturou � multidão. Ela caiu perto do meio fio por onde o gelo que derretia das barracas dos ambulantes se misturava a mijo e sujeira. Enquanto a explosão de fogos fazia o céu de Copacabana brilhar em tons amarelos, verdes, brancos, as lágrimas e o suor de Sabrina coloriam seu rosto de vermelho, azul, preto. Lembrou-se das vezes em que apanhou no banheiro masculino porque gostava de ver os garotos mijando e acabava voltando pra casa cheirando a urina e sangue.
- Zé, acorda, Zé. O que fizeram com você?
E vendo um coração vermelho no céu, Sabrina desmaiou no chão cinzento.
Um homem molhava o rosto de Sabrina tentando acordá-la. Ela segurou com força sua mão, lembrando-se novamente da dor de levar uma surra. Está tudo bem?, ouvia ao longe e a voz lhe parecia familiar. Balançou a cabeça, esfregando os olhos. Já acabaram os fogos? Já está amanhecendo, ele respondeu, onde você mora? Eu não lembro de nada, cadê minha bolsa? Ele levantou Sabrina no colo, seus braços depilados e finos envolvendo o pescoço do homem como se tentasse agarrar desejos prestes a se realizar.
Zé, eu te disse que essa cidade o devoraria vivo.
A voz de Pedro teimava em emergir no primeiro amanhecer do ano. Sabrina aconchegou-se nos braços do homem que a segurava e sussurrou:
- É Sabrina. Agora eu me chamo Sabrina.
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