A vagina de Camila, entreaberta, exala um odor cítrico de grapefruit. Afastando uma da outra as membranas de seus pequenos lábios se adivinham as linhas fibrosas internas da vulva ligeiramente se estremecerem, como as guelras de um peixe. Na extremidade superior da abertura genital, há uma saliência dobrada para o interior, como uma verruga, que precede a cavidade profunda, de paredes enrugadas e róseas, como gomos de uma tangerina, e que se projetam intimamente para a escuridão de sua carne.
Ronaldo terminou sua inspeção e disse secamente para Camila, “vista-se”; então se dirigiu ao banheiro, onde lavou as mãos. Em seguida, foi para a sala, sentou-se no sofá e abriu o jornal que estava estendido na pequena mesa em frente.
Camila já havia se recomposto, mas entrou também no banheiro e sentou no vaso para urinar. Ela estava confusa, mas não por pudor. Ela já não mais se espantava, pois era a terceira vez que Ronaldo havia ordenado que ela despisse as calças, deitasse e abrisse as pernas nuas. A primeira vez foi chocante, mas a voz de Ronaldo foi firme e plena de autoridade, porém sem agressividade. Camila se surpreendeu com sua própria docilidade em atender-lhe prontamente, como um autômato.
O ritual era o mesmo todas as vezes. Ele aproximava a face e com dois dedos seguros apartava suas membranas genitais para observar atentamente o tecido úmido de suas entranhas. Não durava nesta inspeção mais de cinco minutos, sem que, em seus gestos exatos, pudesse se adivinhar a menor malícia. Ele evitava exercer qualquer fricção, e seus dedos não ousavam adentrar sua carne. Na primeira vez, Camila inclinou a face para observá-lo enquanto a examinava, mas Ronaldo lhe disse secamente – “Não olhe”. Ela voltou seus olhos para o teto, enquanto sentia a respiração quente e pausada de Ronaldo entre suas pernas. Ela tentou relaxar e até mesmo se excitar, imaginou então a noite de sexo intenso que fariam em seguida, mas, quando ele terminou, apenas pediu para ela se vestir, enquanto foi lavar suas mãos.
Camila tivera outros namorados e amantes, não muitos, mas o suficiente para conhecer os homens e suas maneiras na cama. Como mulher, chegava a achar curiosa aquela mania masculina de se pensar o “tal”, a ilusão tipicamente machista que o homem imagina “possuir” a mulher, de lhe fornecer um prazer inigualável, não comparável a qualquer outra experiência e de nenhum outro rival. Para o homem, ela imaginava, o sexo é um ritual de dominação, e a mulher, fêmea sujeitada e passiva, é uma presa que apenas confirma, em sua entrega, aquilo que já se sabe, a potência excepcional do macho, senhor da espécie.
Madura, Camila só podia considerar constrangedor o jogo hipócrita da sedução, o teatro romântico que alguns de seus ex-namorados insistiam em encenar para conquistá-la, os jantares galantes em restaurantes moderninhos que simulavam a falsa flama, que dissimulavam a falta mesmo de amor espontâneo, como se fosse uma desculpa adiantada para a futura cena erótica, para o exercício repetitivo e já conhecido do ato sexual. Isto quando não repetiam os patéticos papéis encenados nos mais simplórios filmes pornográficos, supondo a solícita colaboração de mulher que deseja a cada noite revelar a sua face diurnamente camuflada de prostituta selvagem e vulgar.
Com Ronaldo é diferente. Ele nada promete, jamais dissimula. Não há em suas atitudes nenhuma vaidade masculina. Sua virilidade é simples e sóbria. Quando fizeram amor pela primeira vez ele repentinamente apenas pegara em seus braços e os dobrara, forçando-a a curvar sobre a cama, sem violência e sem palavras. E embora Camila seja uma mulher reservada e até mesmo “difícil”, ela só pôde responder-lhe com docilidade, num enigmático estupor. O sexo foi sereno, direto, curto. E após o ato, ainda sem palavras, ele se levantara e fora ler um livro na sala.
Depois vieram os episódios das inspeções, os quais Camila, a princípio constrangida, não soube lhe recusar. Ela se sentia culpada, mais do que agredida, e se perguntava por que lhe faltavam as forças para simplesmente dizer não, mesmo com delicadeza. E se com os outros namorados ela fazia questão da penumbra e dos lençóis providenciais, sob a visão exploratória de Ronaldo ela se achava dissecada e varada de luz, como se, nesse exame, Ronaldo pudesse revelar seu mais recôndito segredo que nem ela mesma conhecia.
Agora ela está na cozinha onde prepara o café, antes de Ronaldo voltar para sua casa, como faz todas as noites que a visita. Quando ela entra com as xícaras, ele comenta a notícia que acabou de ler. Camila mal entende o que ele diz e, enquanto serve o café, apenas percebe o tom e o timbre de sua voz grave, a contínua e pacífica modulação que ele impinge seqüência de palavras. É uma voz bonita e triste, ela pensa, e se envaidece de reconhecer nela um acento furtivo de alguma dolorosa lembrança entremeada e escondida entre as sílabas, pronunciadas sem qualquer alteração de inflexão. Que histórias de sofrimento estarão impressas nesta carne áspera, perdidas sob sua face circunspecta? Este homem a inspecionara, e Camila se sentia aberta, inteiramente vasculhada, como se os mistérios primitivos de sua história, que ela guardara com tanto zelo, tivessem fluído e se dispersado e ela se sentiu, então, repentinamente leve e livre, pela primeira vez em sua vida.
Neste momento, Camila escuta a voz rugosa de Ronaldo com uma nitidez que a impressiona, como se o conhecesse de muitos anos, intimamente. Há uma familiaridade em sua dicção que a conforta, e Camila então se recosta na almofada do sofá, enquanto as sílabas continuam a desprender-se calmamente da boca do homem. Já é tarde da noite, Ronaldo irá partir dali a minutos, mas Camila subitamente sente um desejo de lhe pedir que fique, para que possam dormir placidamente sob a mesma cama, como fazem os casais desde tempos imemoriais.
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