Nov 14
Agora era assim. Ela andando por aí, dona do nariz, nariz esse que já tinha até furo de piercing, de bolsa a tiracolo – cadê a mochila? -, tatuagem, pescoço à mostra e uma auto-confiança de fazer virarem cabeças na rua. Ela ia, sorrindo sozinha, ninguém sabia de quê mas todo mundo olhava. Olhavam. E imaginavam. Ela, minha menina.
Não me lembro bem qual dia foi o último em que a vi, nem o último assunto do qual falamos. Leia o post completo »
Nov 11
Antes de abrir o pequeno pacote azul retangular, verificou se a porta do banheiro estava bem trancada e abriu o chuveiro. Queria entender minuciosamente todas as instruções sem, contudo, perder tempo. Assim pôs-se a ler rapidamente, as mãos ligeiramente trêmulas, como se estivesse fazendo algo obscuro e proibido. O teste consistia em fazer xixi num potinho de plástico, colocar um pequeno bastão retangular mergulhado na urina e esperar dois minutos. Nada parecia muito complicado. Enquanto isso, precisava torcer para que aparecessem duas linhas azuis no bastão, sinal de que sua vida continuaria do mesmo jeito que estava. E tudo ficaria bem.
Não se perguntou se estava preparada ou não. Sabia que a resposta seria negativa. Pela primeira vez em seus dezesseis anos, achou que tinha que enfrentar sozinha todos os fatos. Mas tudo lhe pareceu muito mais difícil que imaginava.
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Nov 07
O hotel de Río Pico era pintado de azul-turquesa pálido e administrado por uma família judia a quem faltavam as mais elementares noções de lucro. Os quartos se alinhavam em torno de um pátio com caixa d’água e canteiros de flores, delimitados por garrafas emborcadas e repletos de luxuriantes lírios alaranjados. A proprietária era uma decidida e melancólica mulher vestida de negro, com pesadas pálpebras, pranteando com a paixão de uma mãe judia a morte de seu primogênito. Ele era saxofonista, fora para Comodoro Rivadavia e ali morrera de câncer no estÿmago. Ela palitava os dentes com um espinho e zombava da futilidade da existência.
Seu segundo filho, Carlos Rubén, era um rapaz de tez cor-de-oliva com os olhos reluzentes de um semita. Ansiava pelo mundo exterior e em breve desapareceria nele. Suas filhas movimentavam-se pesadamente pelos quartos de chão lavado e usavam pantufas. A mãe ordenou que trouxessem para meu quarto uma toalha e um gerânio cor-de-rosa.
Na manhã do dia seguinte, tive uma tremenda discussão por causa da conta.
Quanto lhe devo?
“Nada. Se o senhor não tivesse dormido no quarto, ninguém mais dormiria.”
“E quanto foi o jantar?”
“Nada. Como poderíamos saber que o senhor viria? Cozinhamos para nós mesmos.”
“Mas então quanto devo pelo vinho?”
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Nov 02
Porra! Vomitar é uma merda. Logo de manhã, que nojo! Bebedeira maluca, cerveja com os amigos e depois, caralhadas de uísque. Nem as carreiras de coca deram jeito. Hoje era dia de pagar a conta do cartão. Porra, esta merda nunca chega no dia certo. Que dor nas minhas pernas! Até gosto destas dores musculares, gostosinho, dói quando você se mexe. É bom sentar quando se está cansado. Aí que delícia. Puta que pariu esta cabeça parece que vai explodir. Não podia deixar para outro dia não? Deve estar terminando este inverno. Leia o post completo »
Oct 30
Conheci Alicia por acaso, por um amigo em comum numa festa qualquer. Eu redator e ela cineasta. Eu um cara que sempre teve azar com as mulheres, e ela com aquele jeito de quem passou e vai passar a vida toda com uma fila de homens em seu encalço, e sem nem ligar pra isso.
Viramos colegas, porque tudo que eu me atrevia a desejar dela era amizade. Uma noite tínhamos ido a um barzinho perto da minha casa com amigos, e um desses amigos ficou bêbado de dar dó. O cara estava sentado do lado dela. Na hora que a gorfada veio, adivinha?
“Puta que pariu, Reinaldo! Minha saia!!!”
Aquela altura ela planejava ir pra casa de táxi, mas que táxi ia pegar uma garota com cheio de vômito pra um caminho de pelo menos meia hora? Depois, ainda tinha o risco de achar que a bêbada era ela. Ou então do cheio não sair mais. Ou outra porrada de coisa que ela ia pensando e falando alto ao mesmo tempo, desesperada.
“Ai, e agora?”
Juro que nem tinha pensado sacanagem, foi só como amigo mesmo que eu perguntei se ela não queria colocar a roupa pra lavar lá na minha casa, dormia lá e de manhã pelo menos a roupa estaria a salvo. Tem um beliche, falei. Fomos.
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Oct 28
(Fragmento de “Alice no País das Maravilhas”, na tradução de Monteiro Lobato. Transcrito da edição de 2005 pela Companhia Editora Nacional.)
A mesa era enorme; apesar disso, os três se espremiam numa de suas cabeceiras. Assim que viram Alice aproximar-se, gritaram:
“Não há lugar! Não há lugar!”
“Há, e de sobra!”, gritou Alice, indignada com a grosseria, indo sentar-se na outra cabeceira, numa grande poltrona.
“Aceita um cálice de vinho?”, perguntou a Lebre em tom animador.
Alice olhou e só viu chá em cima da mesa.
“Não vejo vinho nenhum por aqui”, disse.
“Se você não vê é porque não há”, retorquiu a Lebre.
“Se não há, a senhora não foi delicada ao me oferecer.”
“Também não acho delicado uma pessoa estranha sentar-se à mesa sem ser convidada”, retrucou a Lebre mordendo o lábio.
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Oct 23
Sou um homem fodido. E aqui estou no zôobar, o lugar dos seres fodidos. O lugar que restou para a escória, para os que ficaram nas Planícies após as Grandes Inundações. Pois aqueles que se deram bem fugiram para o alto, para as regiões serranas fortificadas. Sou um policial, um tira da DRMC- Divisão de Repressão aos Mento-canibais. Repressão é maneira de dizer, pois não reprimimos, eliminamos canibais. E entre todos, os Mento-canibais, os canibais comedores de cérebros, são os piores e mais perversos, pois comem os miolos de suas vítimas ainda vivas, porque acreditam que assim adquirem mais inteligência. Tenho horror a essas superstições primitivas e sempre aniquilei canibais com prazer, mas estou cansado desta tarefa. Que direito tem um homem fodido de eliminar outro ser também fodido, mesmo um carnívoro cerebral? Mas elimino assim mesmo, com horror e compaixão, com minha pistola lasershot 3.3, pois se aproxima o dia de minha retirada.
Sou um tira de merda. Cometi o maior erro que pode cometer um policial: me apaixonei por uma prostituta. Leia o post completo »
Oct 17
“O diabo necessita de almas para florescer”. Talvez essa frase, para a maioria das pessoas, não signifique nada. Mas eu, quando a li,sabia exatamente do que se tratava.
Porque eu sou uma dessas almas.
No nosso primeiro encontro eu devia ter uns seis anos, aproximadamente. Passava as férias na nossa imensa casa de campo, e numa noite fria de lua cheia acordei com os mugidos tristes de uma rês perdida. A luz da lua entrava pela janela, e foi então que eu O vi. Uma sombra negra, no canto mais escuro do quarto. Seus olhos brilhavam, ardentes, e ele sorria.
No dia seguinte, quando contei o que havia visto para a minha babá ela acariciou meus cabelos e disse que eu era um menininho com uma imaginação muito fértil.
Mas alguns anos depois aconteceu novamente.
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Oct 15
Se eu pudesse voltar e dar um conselho ao meu eu de treze anos, a coisa mais importante que eu diria seria pra levantar a cabeça e dar uma olhada em volta. Eu não conseguia perceber naquela época, mas o mundo todo no qual vivíamos era falso como um Twinkie. Não só a escola, toda a cidade. Por que as pessoas se mudam pro subúrbio? Para ter filhos! Então não é de se espantar que parecesse chato e sem vida. O lugar todo era uma creche gigante, uma cidade artificial criada com o objetivo explícito de cultivar crianças.
No lugar onde cresci, eu sentia como se não houvesse nenhum lugar para ir e nada pra fazer. Isto não acontecia por acaso. Os subúrbios são deliberadamente criados para excluir o mundo lá fora, onde existem coisas que podem colocar as crianças em perigo. Leia o post completo »
Oct 13
Quando seu Oscar abriu a porta, ficou boquiaberto. Lá estava ela, sua esposa de tantos anos, usando uma lingerie. Depois do espanto, o que lhe veio à cabeça foi o contraste. Aquele tecido havia sido desenhado para alguém muito mais jovem e sem as marcas do tempo. A pantomina de sua mulher só ressaltada o peso que a idade teve nela. Ela, por sua vez, ignorava a reação do marido, fosse por inocência ou uma última tentativa desesperada.
Seu Oscar sentou na cama. Leia o post completo »
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